2021.06.01 | Metafísica

Uma reformulação do argumento ontológico de Descartes

Peter van Inwagen (no livro Metaphysics de 2014) sugere que é possível reformular o argumento ontológico de Descartes para ultrapassar as críticas de Gaunilo e Kant. Nessa reformulação, de forma a afastar essas críticas, em vez do conceito de “existência,” considera-se o conceito de “existência necessária.” Uma coisa tem existência necessária se teria existido em todas as circunstâncias possíveis. Ou seja, uma coisa tem existência necessária se a sua não-existência fosse impossível. Por exemplo, coisas que não têm existência necessária: nós, Júlio César, Taj Mahal, monte Evereste, etc. Tais coisas poderiam não ter existido. Assim, podemos dizer que a existência necessária é uma propriedade, ainda que a mera existência não seja uma propriedade. Com essa ideia, o argumento de Descartes pode ser reformulado e apresentado desta forma:

  1. Um ser sumamente perfeito tem todas as perfeições.
  2. A existência necessária é uma perfeição.
  3. Logo, um ser sumamente perfeito tem existência necessária.
  4. Tudo o que tem existência necessária tem existência.
  5. Logo, um ser sumamente perfeito tem existência, ou seja, existe.

Esta formulação parece ser mais plausível do que o argumento original de Descartes. Nomeadamente a premissa 2 parece plausível, pois ao passo que os contingentes dependem de outras coisas para existir, tal não acontece com os necessários. Por isso, não há problema em dizer que a existência necessária é uma perfeição, uma propriedade, e um verdadeiro predicado.

Ainda assim, esta reformulação do argumento continua a ser problemática. Nomeadamente porque a premissa 1 (“Um ser sumamente perfeito tem todas as perfeições”) é ambígua entre duas leituras:

Por um lado, na leitura 1A a conclusão do argumento, para ser válido, será que “tudo o que seja sumamente perfeito terá existência” e isso é trivial. Pois, o que se afirma na conclusão, é apenas uma condicional, nomeadamente: para todo o x, se x é sumamente perfeito, então x tem existência. Mas daí não se pode concluir que existe um ser sumamente perfeito. Por outro lado, na leitura 1B o argumento comete petição de princípio. Isto porque na premissa 1 já se estaria a afirmar que existe um x tal que x é sumamente perfeito, o que é precisamente o mesmo que a conclusão.

Para analisar com rigor esta objeção, podemos recorrer à lógica de predicados. Podemos utilizar três predicados – S, P, T – e duas constantes n, e. Assim, ‘n’ representa a propriedade da existência necessária, ‘e’ representa a existência, ‘Sx’ abrevia ‘x é sumamente perfeito,’ ‘Px’ abrevia ‘x é uma perfeição,’ e ‘Txy’ abrevia ‘x tem y.’ Com base nessas abreviaturas, o argumento na leitura 1A tem a seguinte formalização:

  1. ∀x(Sx → ∀y(Py → Txy))
  2. Pn
  3. ∴ ∀x(Sx → Txn)
  4. ∀x(Txn → Txe)
  5. ∴ ∀x(Sx → Txe)

Este argumento é válido. Contudo, na conclusão não se diz que existe um ser sumamente perfeito, mas apenas uma condicional. Por sua vez, para se afirmar na conclusão que existe um ser sumamente perfeito temos de utilizar a leitura 1B:

  1. ∃x(Sx ∧ ∀y(Py → Txy))
  2. Pn
  3. ∴ ∃x(Sx ∧ Txn)
  4. ∀x(Txn → Txe)
  5. ∴ ∃x(Sx ∧ Txe)

Neste caso o argumento, além de ser válido, conclui que existe um ser sumamente perfeito. O problema neste caso é que na premissa 1 já se está a afirmar que existe um ser sumamente perfeito. Por isso, o argumento nesta segunda leitura comete petição de princípio. Portanto, de uma forma ou de outra, a reformulação do argumento de Descartes não é plausível, ainda que consiga ultrapassar as críticas de Gaunilo e de Kant.