2021.02.04 | Lógica

Inconsistência entre perfeição moral e liberdade divina

Os teístas acreditam que Deus é absolutamente e perfeitamente bom. Mas em simultâneo acreditam que Deus é livre. Contudo, pode-se argumentar que há uma tensão entre perfeição moral e liberdade divina ao sustentar-se que se Deus é moralmente perfeito, então não é livre; e se ele é livre, então não é moralmente perfeito. Isto porque se Deus é moralmente perfeito, então deve, em todas as circunstâncias, fazer a melhor coisa que é possível para ele fazer. Assim, assumindo que há um melhor mundo possível, Deus deve criar esse mundo e não outro. Mas, assim, Deus não é livre com respeito à sua ação de criar.

Porém, suponha-se que, não há o melhor mundo possível, mas uma série infinita de mundos cada vez melhores. Nesse caso, a situação é incompatível com a existência de um ser moralmente perfeito. Isto porque, por um lado, se Deus é um ser moralmente perfeito essencialmente, então não é possível que exista um ser moralmente melhor do que Deus. Contudo, por outro lado, se Deus cria um mundo quando há um mundo melhor que ele poderia criar (dado que a série de mundos é infinita), então é possível haver um ser moralmente melhor do que Deus. Desta forma, temos uma inconsistência. William Rowe desenvolve este argumento no livro Can God Be Free? e pode ser apresentado desta forma:

  1. Ou há ou não há o melhor de todos os mundos possíveis.
  2. Se há o melhor de todos os mundos possíveis, então Deus não é livre (uma vez que teria de criar esse mundo).
  3. Se não há o melhor de todos os mundos possíveis, então Deus não é perfeitamente bom (uma vez que seja qual for o mundo que ele crie, é possível criar um mundo melhor).
  4. Logo, Deus não é simultaneamente livre e perfeitamente bom.

Será este um bom argumento? O argumento é logicamente válido (ver aqui), mas será sólido?