2020.07.19

Argumento dos Zombies ūüßü contra o fisicismo

Al√©m de Kripke (ver aqui), tamb√©m David Chalmers, no livro The Conscious Mind (1996), desenvolve um argumento contra o fisicismo. Esse argumento parte de dois conceitos principais. O primeiro conceito √© o de zombies filos√≥ficos. Estes s√£o f√≠sica, comportamental e funcionalmente indistingu√≠veis de n√≥s, mas n√£o t√™m vida mental interior. Assim, num mundo de zombies filos√≥ficos s√£o exemplificados estados neurofisiol√≥gicos (como a estimula√ß√£o das fibras-c) com o respetivo comportamento mas sem que os correspondentes estados fenom√©nicos (como a dor) ocorram. O segundo conceito importante √© o de concebilidade. Alguma coisa √© conceb√≠vel quando √© compat√≠vel com o que podemos saber a priori. Ou seja, quando n√£o podemos descartar uma proposi√ß√£o com base em afirma√ß√Ķes que s√£o a priori. Por exemplo, √© conceb√≠vel que a √°gua (o l√≠quido incolor, inodoro, que corre nos rios e oceanos, etc) n√£o seja feito de \(\text{H}_2\text{O}\), mas sim de outra mol√©cula \(XYZ\).

Com base nesse nesses conceitos o primeiro passo do argumento afirma que os zombies filos√≥ficos s√£o conceb√≠veis. Ou seja, n√£o podemos descartar com base do que sabemos a priori que existem criaturas como n√≥s mas sem experi√™ncias subjetivas internas. No segundo passo do argumento afirma-se que se os zombies s√£o conceb√≠veis, ent√£o s√£o metafisicamente poss√≠veis. Essa premissa n√£o diz que se alguma coisa √© conceb√≠vel, ent√£o √© metafisicamente poss√≠vel. Pois, nesse caso, seria f√°cil encontrar contra-exemplos (com ‚Äúnecessidades a posteriori‚ÄĚ geradas por nomes pr√≥prios e tipos naturais). Por exemplo, √© conceb√≠vel que √Āgua n√£o seja \(\text{H}_2\text{O}\), mas isso n√£o √© metafisicamente poss√≠vel. Pelo contr√°rio, a premissa faz refer√™ncia a zombies filos√≥ficos (que n√£o envolve nomes pr√≥prios nem tipos naturais). Assim, a premissa √© formulada de modo que n√£o d√° origem a qualquer ‚Äúnecessidade a posteriori‚ÄĚ. Mas, ent√£o, se o termo zombie filos√≥fico n√£o gera necessidades a posteriori, mas √© conceb√≠vel, ent√£o pode-se concluir que √© metafisicamente poss√≠vel. Por fim, no terceiro passo salienta-se que se os zombies s√£o metafisicamente poss√≠veis, ent√£o o fisicismo (reducionista e n√£o-reducionista) √© falso. Isto porque o fisicismo implica que as verdades sobre os estados mentais sobrev√™m das verdades sobre a microf√≠sica. Ou seja, em todos os mundos poss√≠veis em que os factos microf√≠sicos s√£o como os nossos, as criaturas que s√£o f√≠sica e funcionalmente como n√≥s t√™m experi√™ncias subjetivas interiores. Assim, o fisicismo n√£o permite a possibilidade metaf√≠sica de zombies. Ora, juntando esses tr√™s passos obtemos o seguinte argumento:

  1. Os zombies filosóficos são concebíveis.
  2. Se os zombies filosóficos são concebíveis, então eles são metafisicamente possíveis.
  3. Se os zombies filosóficos são metafisicamente possíveis, então o fisicismo é falso.
  4. Logo, o fisicismo é falso.

Ser√° este um bom argumento? Podemos come√ßar por questionar: s√£o os zombies conceb√≠veis? Algumas teorias influentes da mente implicam que os zombies s√£o inconceb√≠veis, como √© o caso da teoria funcionalista. Nessa teoria, os estados mentais s√£o entendidos como rela√ß√Ķes causais entre est√≠mulos externos ao sistema, processos no seio do sistema, e o comportamento resultante do sistema. Uma vez que os zombies iriam satisfazer todas as condi√ß√Ķes funcionais para os estados mentais (de acordo com o funcionalismo), segue-se que os zombies filos√≥ficos s√£o inconceb√≠veis.

Uma outra obje√ß√£o questiona se, no caso dos zombies, a concebilidade implica possibilidade. Uma vez que n√£o temos conhecimento suficiente do mundo f√≠sico, como poderemos afirmar com seguran√ßa a possibilidade dos zombies? Pode-se fazer uma analogia com a conjetura de Goldbach (CG) que sustenta que ‚ÄúQualquer n√ļmero par \(> 2\) √© a soma de dois n√ļmeros primos‚ÄĚ. Se tal conjetura CG for falsa, ela n√£o ser√° poss√≠vel (ainda que seja conceb√≠vel).

Como cr√≠tica final pode-se construir um argumento anti-zombie a favor do fisicalismo. Aqui estamos a entender os ‚Äúanti-zombies‚ÄĚ como seres indistingu√≠veis de n√≥s que t√™m vida mental interna devido a fatores puramente microf√≠sicos. Com base nisso, pode-se montar um argumento paralelo:

  1. Os anti-zombies filosóficos são concebíveis.
  2. Se os anti-zombies filosóficos são concebíveis, então eles são metafisicamente possíveis.
  3. Logo, os anti-zombies são metafisicamente possíveis.

Ora, n√£o se pode aceitar os dois argumentos (zombie e anti-zombie) em simult√Ęneo. Ent√£o por que preferir um deles em vez do outro?