Sebenta de Filosofia 📃

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Polarização e justificação de grupo

No passado dia 24 de setembro apresentei uma comunicação sobre “A virtue-evidentialist proposal to overcome group polarization” na conferência internacional Identity, Culture and Law que se realizou na Universidade Nova de Lisboa. O resumo da minha comunicação está disponível aqui.

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Avaliação da teoria ética do exemplo moral

2019-08-31 21:30:00 | Comentar | Partilhar

Apresentei aqui brevemente a teoria ética do exemplo moral, a qual se poderá inserir na família das éticas das virtudes, proposta pela filósofa Linda Zagzebski; agora quero avançar com algumas possíveis objeções a esta teoria. O objetivo de Zagzebski é fornecer uma teoria ética normativa abrangente que se torne numa alternativa viável às outras teorias éticas. Mas será realmente uma alternativa viável?
Em primeiro lugar, parece haver algum tipo de circularidade nesta teoria. Isto porque, de acordo com Zagzebski, deve-se entender as noções éticas fundamentais (como virtude, dever, bom motivo, etc) ao observar-se e a seguir-se exemplos morais particulares e paradigmáticos. Contudo, parece que a própria identificação e seleção de exemplares morais requer que já se possua algum conhecimento e entendimento prévio do bem e das virtudes; caso contrário, como se poderia escolher de forma correta e não arbitrária os exemplares morais?
Em segundo lugar, a admiração tem um enorme destaque na teoria de Zagzebski, dado que a identificação de exemplares morais é feita por referência direta a pessoas que se admira. O problema é que a admiração não é muitas vezes fiável; considere-se, por exemplo, as figuras históricas (como Hitler ou Estaline) que foram admiradas por multidões de seguidores. É verdade que Zagzebski acrescenta um elementos de reflexão crítica à admiração; mas será isso suficiente suficiente quando temos filósofos como Martin Heidegger e Gottlob Frege a admirar Hitler (embora a responsabilidade de Frege seja muito menor dado que já tinha falecido quando Hitler conquistou o poder e cometeu atrocidades) e Jean-Paul Sartre a admirar Estaline? Além disso, não será que tal reflexão crítica, de forma a selecionar verdadeiros exemplares morais, pressupõe igualmente algum conhecimento prévio de valores morais? Mas, assim, essa teoria parece ser mais uma vez circular (ainda assim, talvez seja possível quebrar essa circularidade ao adicionar uma consideração sobre o que promove o florescimento humano).
Por fim, e em terceiro lugar, vale a pena questionar se a teoria do exemplo moral, tal como é apresentada, nos ajuda a resolver problemas éticos. Uma dificuldade reside no facto de que vários exemplares podem ter diferentes abordagens, ou até respostas inconsistentes, para a mesma questão moral ou dilema moral; assim, parece que esta teoria é de alguma forma incapaz de resolver as questões éticas mais complexas dentro da ética aplicada. Por exemplo, como se resolveriam as questões difíceis sobre a ética do aborto e da eutanásia, sobre o sistema político justo, etc? Seria suficiente a referência a exemplares? Parece que não, pois podem-se encontrar exemplares morais que se contradizem. Por exemplo, pode-se encontrar alguns exemplares que valorizam a santidade da vida humana enquanto outros podem valorizar mais a qualidade de vida. Por isso, a aplicabilidade prática desta teoria torna-se difícil. É difícil ver como é que esta teoria poderia ser realmente uma alternativa às teorias éticas existentes.
Apesar destas objeções, esta teoria pode ter a sua relevância na educação, dado que evidências empíricas (veja-se p.e. os casos de Albert Bandura) indicam que a educação pelo exemplo é impactante e motivacional para se realizarem ações moralmente corretas.

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Recensão de *Lógica Elementar*

2019-08-21 19:30:00 | Comentar | Partilhar

As edições 70 publicaram um livro muito bom sobre lógica escrito por Desidério Murcho. Para uma breve avaliação crítica deste livro escrevi uma recensão aqui.

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Teoria ética do exemplo moral

2019-08-13 11:00:00 | Comentar | Partilhar

No livro Exemplarist Moral Theory (2017) a filósofa Linda Zagzebski apresenta uma teoria ética original construida ao identificar exemplares morais e ao investigar o que os torna exemplares. De acordo com Zagzebski, nós identificamos exemplares morais por referência direta a pessoas que admirámos mediante reflexão crítica - esta reflexão crítica também nos permite eliminar exemplares inapropriados. Por outras palavras e fazendo uma extensão da semântica de Putman e Kripke sobre termos naturais, na teoria de Zagzebski identifica-se exemplares morais por referência direta a pessoas como essas, nomeadamente a indivíduos que nós admiramos mediante a reflexão crítica e identificamos indexicamente apontando para eles (como apontando o exemplo de Leopold Socha - que instancia a virtude da coragem - de Jean Vanier - que instancia a virtude da compaixão - ou de Confúcio - que instancia a virtude da sabedoria). A identificação de exemplares morais por referência direta permite a Zagzebski proporcionar definições de termos morais fundamentais. Por exemplo, uma virtude é um traço que admirámos num exemplar, um dever nalgum conjunto de circunstâncias C é um ato que um exemplar exige de si mesmo e dos outros em C, um bom motivo é o motivo a admirar em exemplares, e uma boa vida é a vida que os exemplares desejam. Portanto, ao contrário da tradição ética, Zagzebski visa primeiro identificar exemplos morais e, por conseguinte, por referência a esses paradigmas de virtude, descrever as noções morais fundamentais. Para uma avaliação crítica desta teoria clique aqui.

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Fundamentalismo católico sobre o movimento LGBT e a falácia da generalização precipitada

2019-08-06 11:30:00 | Comentar | Partilhar

Na comunicação social estão a sair vários textos contra a chamada "ideologia do género" e contra o movimento LGBT. São sobretudo textos apresentados por pessoas que fazem parte de grupos fundamentalistas e conservadores da Igreja Católica. Tipicamente esses textos estão repletos de falácias, tal como explico aqui.

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O cristianismo e os seus puzzles filosóficos

2019-07-25 00:00:00 | Comentar | Partilhar

Muitos dos problemas da teologia estão repletos de puzzles filosóficos. Um desses puzzles tem a ver com o facto dos cristãos acreditarem que Cristo tem duas naturezas complementares, uma divina e outra humana, que parecem contraditórias. Uma forma de mostrar esse problema passa por apresentar argumentos parecidos ao seguinte:

  1. Cristo é imutável (em virtude da natureza divina de Cristo).
  2. Cristo é mutável (em virtude da natureza humana de Cristo).
  3. Logo, Cristo é simultaneamente mutável e imutável. [De 1 e 2]

Existem várias tentativas para evitar a contrição presente em 3. Por exemplo, pode-se negar o princípio de que algo que exemplifique uma natureza $N$ tem quaisquer propriedades que são implicadas por ter a natureza $N$. Rejeitar todas as contradições lógicas (ou seja, frases da forma é verdade que p e é falso que p), exige a rejeição de 1, 2, ou 3. Essa tem sido a abordagem mais tradicional em que se segue a lógica clássica. Mas existe outra forma de lidar com este puzzle ao aceitar 3 (com auxílio de uma lógica paraconsistente) e, assim, ao afirmar que é verdade que Cristo é mutável e é falso que Cristo é mutável. A ideia é que algumas contradições são verdadeiras. Assim, com este tipo de lógica, rejeita-se o princípio da explosão da lógica clássica (também conhecido como ex falso quodlibet) de acordo com o qual:

$(A \wedge \neg A) \vdash B$

Ou seja, de acordo com a lógica clássica, a partir de uma contradição, qualquer coisa se segue. Mas uma lógica paraconsistente, como a de implicação de primeiro grau (“first degree entailment”), não aceita esse princípio. Assim, neste tipo de lógica nem todas as contradições são explosivas. E a contradição presente em 3 seria um desses casos e, por isso, não é problemático aceitar 3. Por outras palavras, uma frase $A$ é absurda de acordo com uma teoria $T$ se, e só se, $A$ é explosiva de acordo com $T$. Contudo, pode-se defender que 3 não é absurda e, por isso, não é explosiva. Para uma forte defesa desta perspetiva vale a pena ler o artigo do filósofo Jc Beall com o título Christ – A Contradiction - A Defense of Contradictory Christology. Esse artigo e outros textos, com um conjunto alargado de respostas e objeções, estão disponíveis aqui. É interessante ver que também um outro excelente filósofo, Graham Priest, aplicou aqui uma estratégia parecida para defender a religião budista.

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Falácias sobre a Eutanásia

2019-07-21 22:30:00 | Comentar | Partilhar

É pena que o debate público em torno da eutanásia (quer se seja a favor ou contra) esteja tão minado com falácias.

Um desses exemplos é o texto publicado pela Laurinda Alves. Veja-se aqui. Por exemplo, a certa altura ela sustenta que "Dizer a alguém que a sua vida não tem sentido e concordar que a única saída é a morte (...) é equivalente a empurrar para o abismo e desumaniza uma sociedade inteira". Mas isto é uma clara falácia do espantalho. A tese dos defensores da eutanásia não é essa que a Laurianda Alves identifica. Para ver isso mais claramente é preciso esclarecer uma ambiguidade na expressão "sentido da vida" ou "valor da vida". Por um lado, (1) podemos usar "sentido da vida" ou "valor da vida" para referir à qualidade de uma vida. E isso é uma questão de grau - há vidas que correm melhor e outras que são uma angústia tremenda tanto a nível físico como psicológico. Por outro lado, (2) podemos usar "sentido da vida" ou "valor da vida" para referir a dignidade da pessoa que vive, do sujeito que tem a vida. Ora, quem defende a eutanásia voluntária pensa que há vidas sem valor ou que algumas vidas não têm sentido apenas na concepção (1), ou seja, há vidas com qualidade expectável tão negativa que são globalmente más. Mas quem defende a eutanásia não tem, nem sequer deve pensar, que nem todas as pessoas têm a mesma dignidade. Ou seja, quem defende a eutanásia não está, nem deve estar, comprometido com uma resposta negativa a (2). Assim, uma pessoa em estado terminal merece igualmente o mesmo respeito de uma pessoa que tem a sorte de estar saudável. E respeitar a pessoa tem como consequência respeitar a autonomia da pessoa com respeito à sua própria vida. E, por isso, não se segue que a eutanásia voluntária seja "equivalente a empurrar para o abismo e desumaniza uma sociedade inteira".

O padre Gonçalo Portocarrero de Almada escreveu aqui um texto onde comete exatamente as mesmas falácias, com a agravante de não estabelecer as distinções conceptuais entre eutanásia ativa, passiva, voluntária, involuntária, e não-voluntária. Vejamos um caso. O padre Gonçalo diz que a primeira mentira sobre a eutanásia é a seguinte - "a eutanásia e o suicídio assistido são legítimos porque queridos pelo próprio". A falácia aqui presente é da equivocidade. Afinal está a referir-se à eutanásia involuntária ou à voluntária? Se estivermos a falar de "eutanásia ativa voluntária" não há aí mentira nenhuma. Mas talvez o padre Gonçalo esteja a referir-se à eutanásia "involuntária" ou "não-voluntária". Mas é coerente defender-se a eutanásia ativa voluntária sem se defender a eutanásia involuntária ou a não-voluntária. Portanto, o padre Gonçalo ao não fazer distinções conceptuais está a fazer uma grande confusão, dado que não é uma mentira que a "a eutanásia ativa voluntária" seja defendida como legítima porque é "querida pelo próprio". Em suma, uma pessoa pode ser contra a eutanásia involuntária ou não-voluntária, mas defender consistentemente a eutanásia ativa voluntária, pois são coisas totalmente diferentes. Contudo, o padre Gonçalo não faz qualquer destas distinções (espero que não seja de forma intencional) que estão bem estabelecidas na literatura. (Clique aqui para outros comentários).

Contudo, o debate de um tema tão sério como a eutanásia, quer se seja a favor ou contra, não deve estar assente sobre falácias. Para uma boa análise sobre este tema da eutanásia recomendo esta leitura Voluntary Euthanasia do filósofo Robert Young.

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A regra beta implica fatalismo

2019-06-29 14:30:00 | Comentar | Partilhar

Na passada sexta-feira, dia 28 de junho, no grupo de filosofia LanCog fiz uma breve apresentação na qual tentei mostrar que a regra beta, tal como formulada por Peter van Inwagen, implica por si só fatalismo. Os slides estão disponíveis aqui.

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Ensaio Premiado

2019-06-17 16:30:00 | Comentar | Partilhar

A Sociedade Portuguesa de Filosofia anunciou na passada sexta-feira (14 de junho de 2019) que o júri da 11ª edição do prémio de Ensaio da SPF 2018, mantendo um rigoroso anonimato na apreciação dos 13 trabalhos admitidos a concurso, decidiu atribuir o prémio da presente edição, dedicada à pergunta “É o livre arbítrio compatível com o determinismo?”, ao meu ensaio "($\beta$) não dá base ao incompatibilismo entre determinismo e livre-arbítrio". Aqui fica um breve resumo do meu artigo:

«Neste ensaio queremos analisar o argumento mais influente e prometedor para sustentar o incompatibilismo entre o determinismo e o livre-arbítrio, conhecido na literatura como “o argumento da consequência”. Esse argumento é bem-sucedido só se a regra (β), ou similar, for válida. Contudo, apresentaremos razões para abandonar ou para se ser cético em relação à regra (β) ou similar. Sem essas regras a tese incompatibilista perde a sua fundamentação mais prometedora, dado que não se conseguirá apresentar de forma válida o argumento da consequência. Assim, defenderemos que (β) ou outra regra similar não dá base para a tese incompatibilista. Para chegarmos a essa conclusão, na secção 1 formularemos o problema da compatibilidade e as respostas compatibilista e incompatibilista. Na secção 2 apresentaremos o argumento da consequência, com a regra (β), a favor da resposta incompatibilista. A secção 3 será dedicada ao exame de um contraexemplo para a regra (β) baseado no princípio da aglomeração. Na secção 4 analisaremos algumas possíveis formas de escapar ao contraexemplo apresentado anteriormente, quer com a reinterpretação do operador NP quer com a reformulação de uma nova regra (β). Advogaremos na secção 5 que a reinterpretação de NP não permite salvar a regra (β), dado que numa leitura essa regra implicará diretamente a tese fatalista e numa outra leitura tal regra será inválida. Além disso, sustentaremos na secção 6 que a formulação de uma nova regra (β) padece de problemas semelhantes que afetam a regra original. Por isso, as tentativas para salvar a regra (β) e o argumento da consequência não são plausíveis. Por fim, discutiremos uma outra consequência indesejável da regra (β) ou similar, dado que com tais regras podemos construir igualmente um argumento para a incompatibilidade entre o indeterminismo e o livre-arbítrio, o que conduz a um inconveniente ceticismo sobre a possibilidade do livre-arbítrio».

Este ensaio será publicado na Revista Portuguesa de Filosofia. Quando for publicado colocarei o artigo disponível para leitura.

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Novidades, artigos, e materiais de filosofia por e-mail

2019-06-02 13:30:00 | Comentar | Partilhar

Receba novidades, artigos, e materiais de Filosofia por e-mail. Como forma de agradecimento pela sua inscrição, pode fazer o download do meu livro Deus em Análise: uma introdução à filosofia da religião. Clique aqui para fazer a sua inscrição.

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Deus é possível? Logo, existe!

2019-04-23 12:00:00 | Comentar | Partilhar

No passado dia 12 de abril apresentei na Universidade de Brasília, no Seminário de Pesquisa Deus e Religião – Um Diálogo entre Diferentes Abordagens, uma comunicação com o seguinte título: "Deus é possível? Logo, existe! Uma nova defesa do argumento ontológico modal". Os slides desta comunicação estão disponíveis aqui.

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Novo Artigo - "O conflito entre o Teísmo Cético e a Epistemologia Reformada"

2019-02-13 19:30:00 | Comentar | Partilhar

O nosso objetivo principal neste texto é argumentar que uma das respostas mais plausíveis para o problema do mal, a teoria do Teísmo Cético, entra em conflito com a resposta da Epistemologia Reformada a propósito da basicidade apropriada da crença teísta. Defendemos que o Teísmo Cético dá-nos boas razões para bloquear o argumento central a favor da tese da Epistemologia Reformada. Este artigo foi publicado no último número da Revista Brasileira de Filosofia da Religião e pode ser consultado aqui ou aqui.

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