08.07.2020

Um enigma sobre normatividade

Timothy Williamson num dos seus mais recentes artigos, com o título ‘Non-modal Normativity and Norms of Belief’ explora um enigma interessante sobre a normatividade. Para isso, considere-se uma norma simples, como:

Regra \(R\): Nenhuma dança na biblioteca.

Esta regra \(R\) induz uma distinção binária entre o permissível e o impermissível. Mais especificamente, faz com que a dança na biblioteca seja impermissível. Ora, considere-se a Alexandria, que está a trabalhar (não a dançar) na biblioteca. Isso é permissível. Mas é permissível que ela dançe? Não, dado que está na biblioteca. Mas é permissível que Alexandria saia da biblioteca e dance? Sim, \(R\) não diz nada sobre o que fazer fora da biblioteca. Em suma, Alexandria não deve dançar, embora ela possa sair da biblioteca e dançar. Mas, assim, temos um enigma, pois rejeitamos 1 e aceitamos 2:

  1. É permissível que Alexandria dance.
  2. É permissível que a Alexandria saia da biblioteca e dance.

Porém, dado o tratamento semântico padrão das duas frases, 2 implica logicamente 1. De forma mais geral, o seguinte princípio é válido na semântica padrão:

\(P(\&E)\): A partir de ‘É permissível que \(S\) faça \(\phi\) e \(\psi\)’, deriva-se ‘É permissível que \(S\) faça \(\phi\)’ e ‘É permissível que \(S\) faça \(\psi\)’.

Temos um enigma; pois, originalmente rejeitamos 1 e aceitamos 2. Mas, pelo princípio \(P(\&E)\), se aceitamos 2 temos de aceitar 1. Como resolver isso? Pode-se ultrapassar o enigma com uma interpretação desse princípio relativizado a situações ou contextos. A premissa significa que \(S\) faz \(\phi\) e \(\psi\) em alguma situação permitida relevante \(s\), onde a situação é permitida na medida em que não contém violação de \(R\). Dessa premissa, pode-se concluir validamente que \(S\) faz \(\phi\) em alguma situação permitida relevante \(s\) e \(S\) faz \(\psi\) em alguma situação permitida relevante \(s\). Em termos de lógica modal, \(P(\&E)\) corresponde à inferência de \(\Diamond (\alpha \wedge \beta)\) para \(\Diamond \alpha\) ou \(\Diamond \beta\) que é válida em qualquer lógica modal normal.

A motivação para o princípio \(P(\&E)\) é colocada em termos de situações possíveis em vez de mundos possíveis. Pois, é preciso muito menos para uma situação possível prevenir violações da regra do que para um mundo possível, dado que mundos são globais ao passo que situações são locais. Por exemplo, imagine-se que em todos os mundos relevantes, a Jane dança obsessivamente na biblioteca; nesse caso \(R\) é sempre violado. Mas isso não deve afetar a permissividade da dança de Alexandria. Por exemplo, se tivermos em consideração possíveis situações locais que contêm as ações de Alexandria mas não as de Jane, de modo que não contêm violações de \(R\).

Como objeção, pode-se criticar que o argumento de 2 para 1 não é uma instância genuína de \(P(\&E)\), dado que equivoca sobre o tempo da dança. Isto porque 1 diz respeito ao que é permissível a Alexandria fazer agora, ao passo que 2 diz respeito ao que é permissível ela fazer mais tarde.

A isso pode-se responder que não há problema; dado que 1 e 2 são naturalmente entendidos como sendo sobre o futuro próximo e não sobre o instante presente. Além disso, com isso a validade de \(P(\&E)\) não fica ameaçada. Pois, isso significa apenas que se a premissa é verdadeira conforme preferida num dado contexto, as conclusões são verdadeiras conforme preferidas no mesmo contexto. Quando consideramos originalmente 1, mantivemos a localização de Alexandria fixa na biblioteca. Ao passo que, quando consideremos 2, não mantivemos a sua localização fixa na biblioteca. Mas uma vez aceite 2, é natural para nós alterar a nossa resposta à questões original ‘É permissível que Alexandria dance?’, dizendo ‘Sim’, embora talvez acrescentando como explicação ‘mas primeiro ela deve sair da biblioteca’. Ou seja, as situações em que ela sai da biblioteca foram implicitamente excluídas como irrelevantes no contexto original, mas não no contexto posterior. Em qualquer contexto em que 2 é verdadeira, 1 também é verdadeira. Ora, as explicações semânticas padrão dos modais permitem essa sensibilidade ao contexto: os mundos possíveis ou situações relevantes são aquelas determinadas contextualmente na base modal.