06.06.2020

Um argumento contra o fisicismo reducionista

Qual é a relação entre mente e corpo? Como resposta a esse problema pode-se defender o fisicismo (ou monismo materialista). De acordo com o qual, as entidades fundamentais da realidade são entidades físicas, geralmente microfísicas (isto é, as entidades fundamentais físicas incluem coisas, tal como quarks, eletrões, neutrinos, gravidade, eletromagnetismo, spin, etc.) Este tipo de teoria pode ser entendida de duas formas. Por uma lado, seguindo o fisicismo reducionista, todas as verdades sobre o domínio microfísico implicam logicamente todas as verdades sobre a mente e a consciência. Por outro lado, de acordo com o fisicismo não-reducionista, a mente é fundada ou sobrevém a partir do físico, sendo que se as propriedades subvenientes, as que ocorrem num nível inferior, são as mesmas, então as propriedades correlacionadas num nível superior, as sobrevenientes, não podem diferir. Deste modo, se a “Mãe Natureza” tivesse de criar um mundo como o nosso (com estados mentais), tudo o que teria de manter seria as entidades microfísicas e as leis da natureza. Não teria de acrescentar qualquer entidades mentais para se obter experiências conscientes.

Essa perspetiva fisicista é negada pelo dualismo que também pode ser entendido de duas formas. Por um lado, de acordo com o dualismo de substâncias, mente e corpo são entendidos como substâncias distintas, sendo que uma substância é aquilo que possui propriedades. Dessa forma, mente e corpo são duas substâncias ontologicamente distintas: uma imaterial e a outra material. Por outro lado, seguindo o dualismo de propriedades, há apenas uma substância (natural) com dois tipos de propriedades fundamentais: propriedades físicas e mentais. A ideia é que os estados mentais (como a consciência) são uma propriedades fundamental da realidade juntamente com as propriedades microfísicas fundamentais. Assim, se a “Mãe Natureza” tivesse de criar um mundo como o nosso (com estados mentais), teria de começar não apenas com propriedades microfísicas, mas também com leis psicofísicas e da consciência (formulando como as propriedades físicas e mentais se relacionam). Com os contributos de Kripke e Chalmers, esta última versão de dualismo tornou-se mais influente do que o dualismo de substâncias.

Com inspiração nas intuições cartesianas pode-se formular um argumento interessante contra o fisicismo reducionista, tal como apresentado por Kripke (1970). Kripke tem como alvo de atenção os filósofos dos anos 50/60 que são predominantemente materialistas (fisicistas) e rejeitam o dualismo cartesiano. Filósofos como Ullin Place e J.J. Smart defendiam uma “teoria identitativa da mente”, segundo a qual os estados mentais não são mais do que estados físicos do cérebro. Para estes filósofos “a mente é o cérebro”. O livro o Nomear e a a Necessidade de Kripke termina precisamente com uma crítica a essa teoria e com uma defesa do dualismo de propriedades (mas não defesa do dualismo de substâncias). Sendo \(m\) a abreviatura de propriedades mentais (como dor) e \(c\) a abreviatura para propriedades físicas ou cerebrais (como a estimulação das fibras-c), a estrutura central do argumento de Kripke é a seguinte:

  1. \(\forall x \forall y ((x=y) \to \Box (x=y))\) [Necessidade da identidade]
  2. \(((m=c) \to \Box (m=c))\) [1, E\(\forall\)]
  3. \(\neg \Box (m=c)\) [Premissa]
  4. \(\therefore \neg (m=c)\) [2 e 3, MT]

O passo 2 segue-se logicamente de 1, pela negação do quantificador universal, e a conclusão 4 segue-se por modus tollens de 2 e 3. Por isso, os passos que precisam de fundamentação são os passos 1 e 3. Em defesa da tese da necessidade da identidade (na premissa 1), Kripke no livro o Nomear e a Necessidade (cf. prefácio, p.42) salienta que: “(…) era claro a partir de \(\forall x \Box (x=x)\) e da lei de Leibniz que a identidade é uma relação «interna»: \(\forall x \forall y ((x=y) \to \Box (x=y))\). (…) Se «a» e «b» são designadores rígidos, segue-se que «a=b», se for verdade, é uma verdade necessária”. Isto porque os designadores rígidos designam o mesmo objeto em todos os mundos possíveis em que o objeto existe. Uma possível reconstrução do argumento de Kripke é a seguinte:

  1. \(\forall x \forall y ((x=y) \to (Fx \to Fy))\) [Lei de Leibniz (LL)]1
  2. \(\forall x \Box (x=x)\) [Nec. da auto-identidade]
  3. \(\forall x \forall y ( (x=y) \to (\Box (x=x) \to \Box (x=y)))\) [Instância da LL]2
  4. \(\therefore \forall x \forall y ((x=y) \to \Box (x=y))\) [Necessidade da identidade]

Uma consequência deste argumento é que não existem identidades contingentes. Em defesa da premissa 3 do argumento de Kripke, em que se afirma que \(\neg \Box (m=c)\) ou, de forma logicamente equivalente, \(\Diamond (m \neq c)\), pode-se alegar que podemos conceber \((m \neq c)\). Mas porquê? Kripke assinala que não é concebível que um estado mental \(m\) (p.e. “dor”) ocorra sem a fenomenologia caraterística de \(m\) (i.e. a “sensação de dor”), mas é concebível um estado cerebral \(c\) (p.e. “estimulação das fibras-c”) ocorra sem o estado mental \(m\) (i.e. “dor”). Logo, é concebível que um estado cerebral \(c\) ocorra sem o estado mental \(m\). Ou seja, é concebível que \((m \neq c)\). Dessa forma, é concebível que a estimulação das fibras-c poderia ocorrer no corpo de uma pessoa sem que essa pessoa tivesse dores. Por exemplo, os seres humanos poderiam ter uma constituição diferente da que têm, devido à qual essa estimulação lhes provocasse cócegas em vez de dores. E se é concebível \((m \neq c)\), então é \(\Diamond (m \neq c)\), o que é logicamente equivalente à premissa 3: \(\neg \Box (m=c)\).

Como objeção, que Kripke antecipa, poder-se-ia dizer que temos de aceitar que \(\Box (m=c)\), tal como aceitámos \(\Box (\text{calor}=\text{movimento molecular})\). Nos dois casos há apenas uma ilusão de contingência que se pode explicar. No entanto, de acordo com Kripke, apenas se consegue explicar essa ilusão em relação ao segundo caso e não em relação ao primeiro. Começando pelo segundo caso, quando se tenta conceber que \((\text{calor} \neq \text{movimento molecular})\) há uma ilusão de contingência e essa ilusão é explicada pela distinção entre o “fenómeno exterior” e a “sensação interna”. Pois, o que poderia ser diferente é a sensação interna causada pelo fenómeno exterior. Por exemplo, uma situação em que, devido a diferenças no sistema nervoso, a sensação de calor é causada por feixes de fotões em vez do movimento molecular. Assim, a sensação de calor não é uma propriedade essencial do calor. Numa tal situação continuaria a ser verdade que \(\Box (\text{calor}=\text{movimento molecular})\). Contudo, em relação ao primeiro caso, quando se tenta conceber que \((m \neq c)\) não há qualquer ilusão de contingência. Pois, no caso das propriedades mentais \(m\), como dor, não há distinção entre “fenómeno externo” e “sensação interna”, dado que não se pode fazer a distinção entre “dor” e “sensação de dor”. Ou seja, a sensação de dor é uma propriedade essencial de toda a dor. Assim, se a correlação entre \(m\) e \(c\) é meramente contingente, eles não são o mesmo fenómeno.3 Em suma, como fundamentação da premissa 3, Kripke defende que:

  1. Podemos conceber \((m \neq c)\) e não há ilusão de contingência nessa conceção.
  2. Se \((m \neq c)\) é concebível e não há ilusão de contingência nessa conceção, então é \(\Diamond (m \neq c)\).
  3. \(\therefore \Diamond (m \neq c)\), ou seja, \(\neg \Box (m=c)\).

Assim, com base nos passos 1, 2, e 3 pode-se concluir validamente que \(\neg (m=c)\), ou seja, não há identidade entre as propriedades mentais e físicas (e, dessa forma, a teoria do fisicismo reducionista não é plausível). Será este um bom argumento? Para uma análise crítica deste argumento de Kripke pode ler um artigo que escrevi aqui.


  1. Também conhecido como “Princípio da Indiscernibilidade dos Idênticos”: se \(x\) e \(y\) são o mesmo objeto, tudo o que for verdadeiro de \(x\) será também verdadeiro de \(y\).↩︎

  2. Ou seja, ser necessariamente idêntico a \(x\) é uma propriedade que \(y\) também tem, já que \(x\) e \(y\) são o mesmo.↩︎

  3. Para defender isso Kripke recorre igualmente à seguinte metáfora: imagine-se Deus a criar o mundo e a decidir trazer à existência todo o universo físico. Tendo criado este universo puramente físico, parece que ele teria de fazer mais trabalho para proporcionar o universo com consciência.↩︎