31.08.2019

Teoria ética do exemplo moral

No livro Exemplarist Moral Theory (2017) a filósofa Linda Zagzebski apresenta uma teoria ética original construida ao identificar exemplares morais e ao investigar o que os torna exemplares. De acordo com Zagzebski, nós identificamos exemplares morais por referência direta a pessoas que admirámos mediante reflexão crítica - esta reflexão crítica também nos permite eliminar exemplares inapropriados. Por outras palavras e fazendo uma extensão da semântica de Putman e Kripke sobre termos naturais, na teoria de Zagzebski identifica-se exemplares morais por referência direta a pessoas como essas, nomeadamente a indivíduos que nós admiramos mediante a reflexão crítica e identificamos indexicamente apontando para eles (como apontando o exemplo de Leopold Socha - que instancia a virtude da coragem - de Jean Vanier - que instancia a virtude da compaixão - ou de Confúcio - que instancia a virtude da sabedoria). A identificação de exemplares morais por referência direta permite a Zagzebski proporcionar definições de termos morais fundamentais. Por exemplo, uma virtude é um traço que admirámos num exemplar, um dever nalgum conjunto de circunstâncias C é um ato que um exemplar exige de si mesmo e dos outros em C, um bom motivo é o motivo a admirar em exemplares, e uma boa vida é a vida que os exemplares desejam. Portanto, ao contrário da tradição ética, Zagzebski visa primeiro identificar exemplos morais e, por conseguinte, por referência a esses paradigmas de virtude, descrever as noções morais fundamentais.

No parágrafo acima apresentei brevemente a teoria ética do exemplo moral, a qual se poderá inserir na família das éticas das virtudes, proposta pela filósofa Linda Zagzebski; agora quero avançar com algumas possíveis objeções a esta teoria. O objetivo de Zagzebski é fornecer uma teoria ética normativa abrangente que se torne numa alternativa viável às outras teorias éticas. Mas será realmente uma alternativa viável?

Em primeiro lugar, parece haver algum tipo de circularidade nesta teoria. Isto porque, de acordo com Zagzebski, deve-se entender as noções éticas fundamentais (como virtude, dever, bom motivo, etc) ao observar-se e a seguir-se exemplos morais particulares e paradigmáticos. Contudo, parece que a própria identificação e seleção de exemplares morais requer que já se possua algum conhecimento e entendimento prévio do bem e das virtudes; caso contrário, como se poderia escolher de forma correta e não arbitrária os exemplares morais?

Em segundo lugar, a admiração tem um enorme destaque na teoria de Zagzebski, dado que a identificação de exemplares morais é feita por referência direta a pessoas que se admira. O problema é que a admiração não é muitas vezes fiável; considere-se, por exemplo, as figuras históricas (como Hitler ou Estaline) que foram admiradas por multidões de seguidores. É verdade que Zagzebski acrescenta um elementos de reflexão crítica à admiração; mas será isso suficiente suficiente quando temos filósofos como Martin Heidegger e Gottlob Frege a admirar Hitler (embora a responsabilidade de Frege seja muito menor dado que já tinha falecido quando Hitler conquistou o poder e cometeu atrocidades) e Jean-Paul Sartre a admirar Estaline? Além disso, não será que tal reflexão crítica, de forma a selecionar verdadeiros exemplares morais, pressupõe igualmente algum conhecimento prévio de valores morais? Mas, assim, essa teoria parece ser mais uma vez circular (ainda assim, talvez seja possível quebrar essa circularidade ao adicionar uma consideração sobre o que promove o florescimento humano).

Por fim, e em terceiro lugar, vale a pena questionar se a teoria do exemplo moral, tal como é apresentada, nos ajuda a resolver problemas éticos. Uma dificuldade reside no facto de que vários exemplares podem ter diferentes abordagens, ou até respostas inconsistentes, para a mesma questão moral ou dilema moral; assim, parece que esta teoria é de alguma forma incapaz de resolver as questões éticas mais complexas dentro da ética aplicada. Por exemplo, como se resolveriam as questões difíceis sobre a ética do aborto e da eutanásia, sobre o sistema político justo, etc? Seria suficiente a referência a exemplares? Parece que não, pois podem-se encontrar exemplares morais que se contradizem. Por exemplo, pode-se encontrar alguns exemplares que valorizam a santidade da vida humana enquanto outros podem valorizar mais a qualidade de vida. Por isso, a aplicabilidade prática desta teoria torna-se difícil. É difícil ver como é que esta teoria poderia ser realmente uma alternativa às teorias éticas existentes.
Apesar destas objeções, esta teoria pode ter a sua relevância na educação, dado que evidências empíricas (veja-se p.e. os casos de Albert Bandura) indicam que a educação pelo exemplo é impactante e motivacional para se realizarem ações moralmente corretas.