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Fundamentalismo católico sobre o movimento LGBT e a falácia da generalização precipitada

Tenho receio dos textos parecidos àquele que escreveu a professora Margarida Miranda, com o título Educação sexual sem cegonhas, ou educar para amar (publicado no site PontoSJ - ver aqui), e do seu caráter falacioso que pode semear na sociedade algumas falsas ideias sobre o complexo fenómeno LGBT no seu global, dando achas para a fogueira do populismo de extrema-direita. Este texto publicado no PontoSJ parece-me cometer uma instância da falácia da generalização precipitada. A estratégia desta falácia é simples: pega-se em alguns aspetos negativos N de alguns membros de um dado grupo G e afirma-se que todo o G tem N (quando isso não acontece de facto). Parece-me que isso ocorre neste texto: pega-se em alguns aspetos negativos de alguns membros do grupo LGBT para dizer que todo o grupo LGBT tem esses aspetos negativos. Mas repare-se que esse tipo de argumentação está à mesma altura daqueles que pegam em alguns aspetos negativos de alguns membros da Igreja Católica (p.e. pedofilia, corrupção, etc) e afirmam que todos os membros da Igreja têm esses aspetos negativos e que, por isso, na Igreja só há pedofilia e corrupção (acho que já ouvimos isso de ateus mais fundamentalistas!). Mas pelo facto de haver casos criminosos de pedofilia na Igreja daí não se segue que tudo o que acontece na Igreja seja mau, tal como pelo facto de haver atitudes mais extremistas por alguns membros do grupo LGBT (como aqueles casos mais extremos da escola primária em Londres, etc) daí não se segue que tudo o que acontece no grupo LGBT seja mau. E é estranho a postura argumentativa da autora deste texto: por que razão só encontra vícios no grupo LGBT? Não há qualquer virtude no movimento LGBT? Faz-me lembrar aqueles ateus fundamentalistas, tipo Dawkins, que só vêm vícios na Igreja e que o fenómeno religioso deve ser eliminado por ser um vírus. A argumentação do texto apresentado parece muito semelhante aos dos fundamentalistas religiosos: o movimento ou grupo LGBT é uma espécie de vírus, só tem vícios, que deve ser eliminado a todo o custo da sociedade. Faz-me impressão este tipo de fundamentalismo, pois estão a caricaturar ou a fazer uma falácia do espantalho da realidade a ser descritas: num caso a caricatura é sobre a religião, no outro caso é sobre o movimento LGBT.

Sim, é preciso reconhecer que no movimento LGBT há alguns aspetos negativos ou alguns sectores são mais extremistas (mas isso também ocorre em qualquer grande grupo, como na Igreja Católica, que também padece de alguns aspetos negativos e alguns sectores são mais extremistas, com “latins e latinórios, rendinhas e rendilhados, vénias e salamaleques” como descreveu recentemente o bispo das forças armadas). Apesar disso, é preciso saber reconhecer também as virtudes desse grupo e de que forma podem ser benéficas para a sociedade. Sobre isso, o livro Building a Bridge: How the Catholic Church and the LGBT Community Can Enter into a Relationship of Respect, Compassion, and Sensitivity, do padre jesuíta James Martin, pode dar algumas chaves hermenêuticas sobre essas virtudes e sobre como se pode ser ao mesmo tempo Católico e estar no movimento LGBT. Isso não é incompatível (ao contrário do que se quer fazer passar neste texto). Ao contrário do que se diz no texto, pode-se defender ao mesmo tempo a família e fazer parte do movimento LGBT (ou dos seus sectores mais moderados). E sobretudo é preciso olhar para os testemunhos vivos: pessoas católicas concretas que lidam diariamente, nas suas famílias e comunidades, com crianças, jovens e adultos com problemas de identidade de género, transsexualidade, transgénero, etc. Recomendo as seguintes leituras para se consiga ver que o movimento LGBT também pode ter virtudes:

Um desafio: depois destas leituras será que continuamos a ter uma visão demasiado simplista e fundamentalista do movimento LGBT? Será que conseguimos ver algumas das virtudes e aspetos positivos que podem haver neste movimento? Ou só conseguimos ver aspetos negativos como faz o padre Gonçalo Portocarrero de Almada (ver aqui) e a professora Margarida Miranda neste texto do PontoSJ?  


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