25.07.2019

O cristianismo e os seus puzzles filosóficos

Muitos dos problemas da teologia estão repletos de puzzles filosóficos. Um desses puzzles tem a ver com o facto dos cristãos acreditarem que Cristo tem duas naturezas complementares, uma divina e outra humana, que parecem contraditórias. Uma forma de mostrar esse problema passa por apresentar argumentos parecidos ao seguinte:

  1. Cristo é imutável (em virtude da natureza divina de Cristo).
  2. Cristo é mutável (em virtude da natureza humana de Cristo).
  3. Logo, Cristo é simultaneamente mutável e imutável. [De 1 e 2]

Existem várias tentativas para evitar a contrição presente em 3. Por exemplo, pode-se negar o princípio de que algo que exemplifique uma natureza \(N\) tem quaisquer propriedades que são implicadas por ter a natureza \(N\). Rejeitar todas as contradições lógicas (ou seja, frases da forma é verdade que p e é falso que p), exige a rejeição de 1, 2, ou 3. Essa tem sido a abordagem mais tradicional em que se segue a lógica clássica. Mas existe outra forma de lidar com este puzzle ao aceitar 3 (com auxílio de uma lógica paraconsistente) e, assim, ao afirmar que é verdade que Cristo é mutável e é falso que Cristo é mutável. A ideia é que algumas contradições são verdadeiras. Assim, com este tipo de lógica, rejeita-se o princípio da explosão da lógica clássica (também conhecido como ex falso quodlibet) de acordo com o qual:

\((A \wedge \neg A) \vdash B\)

Ou seja, de acordo com a lógica clássica, a partir de uma contradição, qualquer coisa se segue. Mas uma lógica paraconsistente, como a de implicação de primeiro grau (“first degree entailment”), não aceita esse princípio. Assim, neste tipo de lógica nem todas as contradições são explosivas. E a contradição presente em 3 seria um desses casos e, por isso, não é problemático aceitar 3. Por outras palavras, uma frase \(A\) é absurda de acordo com uma teoria \(T\) se, e só se, \(A\) é explosiva de acordo com \(T\). Contudo, pode-se defender que 3 não é absurda e, por isso, não é explosiva. Para uma forte defesa desta perspetiva vale a pena ler o artigo do filósofo Jc Beall com o título Christ – A Contradiction - A Defense of Contradictory Christology. Esse artigo e outros textos, com um conjunto alargado de respostas e objeções, estão disponíveis aqui. É interessante ver que também um outro excelente filósofo, Graham Priest, aplicou aqui uma estratégia parecida para defender a religião budista.