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O Desacordo e a Racionalidade do Teísmo

Podemos notar que as várias religiões sustentam frequentemente perspetivas contraditórias. Essa observação gera um problema quando se pensa sobre a racionalidade da crença religiosa: poderá uma crença religiosa ser racional para aqueles que estão cientes deste desacordo generalizado entre religiões? Será que o conhecimento de várias comunidades religiosas que sustentam crenças incompatíveis enfraquece a racionalidade das crenças religiosas em geral? Para respondermos a este problema propomos investigar a mais recente literatura sobre a Epistemologia do Desacordo e analisar as consequências dessa investigação para a racionalidade das crenças religiosas.

Introdução à epistemologia do desacordo

As pessoas discordam de praticamente qualquer assunto (quer seja política, religião, moralidade, questões de facto, questões de gosto, etc). Esse desacordo acontece igualmente entre pares epistémicos; ou seja, interlocutores que estão igualmente familiarizados com os dados ou evidências relevantes e são igualmente inteligentes, talentosos, racionais, etc. A este propósito, Richard Feldman e Ted Warfield (2010: 1) salientam que:

O desacordo é comum. Dois peritos em meteorologia não concordam com a previsão do fim de semana. Dois economistas igualmente bem informados não concordam com o movimento mais provável nas taxas de juros. Dois jogadores de xadrez com o mesmo ranking não concordam se as «brancas» estão em melhor posição num dado tabuleiro. Os exemplos disponíveis são ilimitados e variam largamente em quase todos os aspetos da vida.

Como lidar com o desacordo? O fenómeno do desacordo levanta várias questões epistémicas: quando confrontados com um desacordo com um par epistémico, será que devemos manter as nossas crenças ou, pelo contrário, devemos revê-las ou até abandoná-las? Não cairemos em ceticismo radical se abandonarmos as nossas crenças sempre que elas forem contestadas por algum dos nossos pares? O que devemos nós racionalmente fazer quando nos encontramos numa situação desacordo epistémico entre pares? Em síntese, o desacordo levanta os seguinte problemas filosóficos:

  1. Devemos diminuir o grau de confiança que temos na nossa crença?
  2. Devemos suspender o juízo por inteiro, dado que um par epistémico está em desacordo connosco?
  3. Ou devemos, pelo contrário, manter o grau de crença que tínhamos antes de sermos confrontados com uma opinião divergente?

Como resposta a esses problemas existem duas teorias principais na literatura filosófica. Por um lado, temos as teorias conciliatórias, em que filósofos como Christensen (2007), Feldman (2006), Elga (2007) e Kornblith (2010) argumentam que, quando discordamos de um par epistémico, devemos estar dispostos a rever (ou talvez abandonar) as nossas crenças relevantes - por outras palavras, não querer rever as nossas crenças e ignorar as opiniões divergentes de nossos pares parece profundamente dogmático e arrogante. Por outro lado, quanto às teorias inflexíveis, temos filósofos como Foley (2001), Kelly (2005), Wedgewood (2007) e Peter van Inwagen (2010) que argumentam que, quando confrontados com o desacordo entre pares, há momentos em que devemos estar dispostos a manter a nossa posição epistémica. Caso contrário, a atitude de simplesmente abandonar as nossas crenças cuidadosamente formadas em face do desacordo entre pares parece, pelo menos em muitos casos, irresoluto e epistemicamente ineficaz.

Mas qual é a motivação para adotar essas teorias? Em relação às teorias conciliatórias, procura-se argumentar que grande parte das nossas crenças quotidianas são epistemicamente inócuas (como no caso da crença de que temos leite no frigorífico, etc). Embora acreditemos sinceramente nessas coisas, não as sustentamos tão carinhosamente ou firmemente, não lhes atribuímos todo o estatuto epistémico positivo, e certamente não perderíamos o sono se descobríssemos que estávamos enganados ou que um par epistémico não concorda connosco. Ora, a maior parte das nossas crenças quotidianas são tais que qualquer desacordo sobre elas deve conduzir a uma virtuosa revisão de tais crenças. A favor disso, considere-se o caso apresentado por Hilary Kornblith (2010: 32):

Suponha-se que tu e eu vamos a um restaurante com vários amigos. Depois de uma grande refeição, chega a conta e concordamos em dividir os custos de forma igual. Eu e tu somos bons em cálculo mental. Dou uma olhada na conta e calculo o que cada pessoa deve, e então coloco a minha quantia de dinheiro no meio da mesa. Tu olhas também para a conta, calculas o que cada pessoa deve e colocas a tua quantia de dinheiro no meio da mesa, então percebemos que colocamos quantias diferentes. Estamos cientes de todas as habilidades matemáticas do outro, e estamos cada vez mais convencidos da honestidade do outro. Pelo menos um de nós cometeu um erro. Não seria para mim razoável concluir que, uma vez que algum de nós cometeu o erro, deves ser tu o culpado. A coisa razoável a fazer nesta situação, e certamente o que a maioria das pessoas de facto faz nessa situação, é suspender a crença. Cada um de nós olha novamente para a conta e tenta recalcular o resultado correto.

A maior parte dos nossos desacordos do dia-a-dia são como os que foram descritos aqui por Hilary Kornblith. E em todos esses casos, o desacordo pode ser facilmente resolvido. A coisa razoável a fazer nesses casos é rever a crença (ou suspender a crença ou, pelo menos, diminuir os estatuto epistémico positivo que se atribui a essa crença) até se ter mais dados ou evidências. Por exemplo, no caso de um desacordo sobre se há leite no frigorífico podemos simplesmente abrir e olhar para o frigorífico.

Contudo, os filósofos das teorias inflexíveis procuram evidenciar que nem todas as formas de desacordo entre pares devem forçar a revisão das nossas crenças. Existem algumas crenças que nos são demasiado queridas, crenças que são também centrais ou demasiado fundamentais e, assim, demasiado importantes para permitir revisões, ajustes, ou suspensão. Como motivação para estas teorias, considere-se o caso seguinte:

O José é um filósofo que está a trabalhar no seu escritório, quando uma das suas colegas, Maria, faz uma pausa para conversar. Ora, o José considera a Maria ser um seu par epistémico - ele não tem razão para suspeitar que Maria é de alguma forma menos inteligente, educada, hábil do que ele próprio. No entanto, hoje a Maria surpreende José com uma revelação chocante. A Maria confidencia ao José que ela parou recentemente de acreditar que \(2+2=4\). Contudo, se o José sabe alguma coisa, ele sabe que \(2+2=4\). Será que o desacordo da Maria com respeito a isso deverá forçar o José a reconsiderar a sua crença sobre a aritmética? Aparentemente não. Para todos os efeitos, o José não pode simplesmente abandonar ou modificar significativamente tais crenças. Tais crenças são muito importantes e com imensas consequências.

Em casos semelhantes ao anterior podemos presumivelmente concordar que não é razoável forçar os interlocutores a suspender, modificar, ou rever as suas respetivas crenças quando estão perante um desacordo entre pares. Nesses casos, o desacordo é sobre crenças que são muito preciosas, queridas, centrais, fundacionais, etc, de tal forma que não parece razoável exigir uma revisão ou suspensão. Por exemplo, a crença que \(2+2=4\) presumivelmente tem o máximo (ou quase máximo) estatuto epistémico positivo. Assim, tais casos dão motivação para aceitar as teorias inflexíveis.

Deste modo, por um lado, nesta discussão vemos que há casos de desacordo entre pares em que a coisa razoável a fazer é modificar, rever, suspender a nossa crença (no caso das teorias conciliatórias). Mas, por outro lado, há casos de desacordo epistémico em que a a coisa razoável a fazer é ser dogmático, manter-se firme, e não comprometer a nossa crença (no caso das teorias inflexíveis). O que devemos fazer então perante o desacordo entre pares?

Uma possível solução pode ser adotar uma abordagem contextualista. Assim, em determinados contextos pode ser mais razoável seguir teorias conciliatórias e noutros contexto pode ser mais razoável seguir teorias inflexíveis. Mas em que contextos se deve ser mais conciliatório ou mais inflexível? Para responder a essa questão pode-se notar que há dois fatores que rastreiam os vários contextos:

  1. O estatuto epistémico positivo que se atribui à crença (consciente ou subconscientemente, antes do desacordo);
  2. O estatuto epistémico positivo que a crença realmente tem (antes do desacordo).

Por um lado, se em determinados contextos o estatuto epistémico positivo que uma dada crença tem, relativamente a (1) e (2), é moderado (ou até escasso), então será razoável seguir as teorias conciliatórias. Por outro lado, se em determinados contextos o estatuto epistémico positivo que uma dada crença tem, relativamente a (1) e (2), está no grau máximo ou elevado, então será razoável seguir as teorias inflexíveis.

Por exemplo, tendo em conta (1) e (2), podemos sustentar que no contexto do Caso Restaurante, o protagonista atribui uma quantidade moderada de estatuto epistémico positivo à sua crença, e a crença em questão (embora seja geralmente pouco provável que ela seja falsa), tem uma quantidade moderada de estatuto epistémico positivo. Por isso, nesse caso o mais adequado é seguir as teorias conciliatórias. Contudo, num contexto como o Caso da Aritmética, o protagonista sustenta a sua crença com firmeza absoluta (ou seja, é difícil pensar em qualquer coisa que ele possa acreditar mais do que em \(2+2=4\)) e a crença em questão, estamos a supor, tem de facto a quantidade máxima de estatuto epistémico positivo. Por isso, neste último caso é mais apropriado seguir as teorias inflexíveis. Estes resultados permitem-nos traçar um mapa (pelo menos provisório) de respostas razoáveis ao desacordo entre pares.

Casos difíceis de desacordo

Até agora consideramos dois casos de desacordo epistémico entre pares em que geralmente podemos concordamos como lidar com eles razoavelmente. Contudo, como objeção, pode-se sublinhar que esses são casos fáceis de desacordo epistémico entre pares e que na vida diária muitas vezes somos confrontados com casos difíceis em que o desacordo é perene e aparentemente intratável. Um desses casos difíceis tem a ver com casos de fronteira. Tais casos são difíceis e geram perplexidade porque puxam simultaneamente as nossas intuições para duas direções opostas e, assim, ficamos sem saber se o mais razoável é seguir as teorias conciliatórias ou inflexíveis para lidar com tais casos. Considere-se o seguinte caso de “desacordo persistente” apresentado por Catherine Elgin (2010: 54):

Suponha-se que dois paleontólogos, José e João, são pares epistémico que discordam sobre o destino dos Neandertais. O José acredita que os Neandertais eram um beco sem saída evolutivo. Incapazes de competir, simplesmente morreram. O João acredita que os Neandertais evoluíram para hominídeos posteriores, cujos descendentes estão hoje vivos. Porque o problema é complexo e a evidência é equívoca, eles chegam a conclusões diferentes sobre isso. O que eles deveriam (e nós) fazer com o seu desacordo? Em particular, deve o facto de um par epistémico discordar com o José ter algum efeito sobre o estatuto epistémico da sua crença? Será que o conhecimento de José desse facto deve ter algum efeito?

Será que o José e o João devem rever as suas crenças? Ou eles podem razoavelmente manter as suas crenças? Elgin (2010) sublinha que aqui as opiniões divergem:

Alguns filósofos, tais como Richard Feldman, Hilary Kornblith e David Christensen, alegam que a existência de um desacordo entre pares enfraquece o fundamento da crença. Se alguém com a mesma evidência, treino, conhecimento de fundo e habilidades de raciocínio chegou à conclusão oposta de José, isso é evidência de que os fundamentos de José são inadequados. Tais filósofos pensam que os agentes epistémicos devem moderar os seus pontos de vista perante o desacordo. Outros, tais como Thomas Kelly e Richard Foley, sustentam que é razoável um pensador manter a sua opinião em face de um desacordo com um par epistémico. Eles pensam que os agentes epistémicos devem ser firmes.

Em suma, estamos perante um caso de fronteira, pois se (i) os resultados da paleontologia merecem uma atribuição de um grau bastante elevado de estatuto epistémico positivo (pelo menos mais do que um olhar superficial sobre uma conta no restaurante e menos do que o adulto médio com aritmética básica) e (ii) o José e o João estão a atribuir às suas crenças um estatuto epistémico positivo devido aos resultados da paleontologia, então somos puxados em duas diferentes direções. Não é claro se o José e João devem rever as suas crenças ou se devem razoavelmente manter o seu fundamento epistémico.

Mas há outros casos problemáticos e desafiantes de desacordo entre pares que não são casos de fronteira. Há casos de desacordo entre pares que são intratáveis porque envolvem crenças que são extremamente pessoais, significativas e íntimas, crenças que são muito propensas de atribuição (consciente ou inconscientemente) de um estatuto epistémico positivo incomparável mesmo quando não o deveriam ser. Considere-se o seguinte caso:

Manuel é um conservador comprometido. A maioria dos seus amigos são conservadores. Ele frequenta blogs e sites conservadores. E faz parte de uma ampla comunidade conservadora. Contudo, Maria é uma liberal. A maioria dos seus amigos são liberais. Ela frequenta blogs e sites liberais. E faz parte de um ampla comunidade liberal. Manuel acredita que o aborto deve ser ilegal, exceto talvez nos casos que envolvem violação ou casos em que a gravidez ameaça a vida da mãe. Por contraste, Maria acredita, entre outras coisas, que o aborto deve ser legal e facilmente acessível a mulheres em qualquer lugar. Manuel e Maria são pessoas igualmente inteligentes, talentosas, e perspicazes. Apesar disso, quando Manuel e Maria discutem as suas diferenças de opinião e reveem todos os argumentos de ambos a favor e contra as suas respetivas posições, eles permanecem inamovíveis.

Para crenças que são extremamente pessoais, significativas, íntimas - sendo paradigmáticas as crenças relacionadas com religião, política, e moralidade - pode haver muitas coisas em jogo. Por exemplo, as crenças políticas de Manuel e Maria afetam extremamente a forma como eles veem o mundo, o que leem com mais atenção, quem são os seus amigos próximos, e talvez mesmo quem eles confiam mais. Para aqueles sujeitos as respetivas crenças políticas são tão próximas e queridas para eles de tal forma que abandoná-las poderia geral um cataclísmico intelectual.

Supondo que não se pode atribuir um estatuto epistémico positivo igualmente superior ou num máximo grau para perspetivas incompatíveis, pelo menos um dos interlocutores está a cometer um vício epistémico; ou seja, um deles está a atribuir mais estatuto epistémico positivo à sua crença do que deveria. Contudo, ao contrário dos casos do restaurante ou da aritmética, o problema agora está em determinar quem é o culpado. Por isso, casos semelhantes a este último são particularmente intratáveis. Isto é, são casos que envolvem crenças que são tão pessoais, significativas, íntimas que são particularmente e notoriamente propensas a vício intelectual. Nomeadamente, nesses casos os sujeitos estão propensos a atribuir um estatuto epistémico positivo extremo, mesmo quando este é (em última instância) imerecido. Como resolver, então, estes problemas? O que devemos fazer quando estamos perante tais desacordos intratáveis?

Uma resposta imediata talvez consista em dizer que perante tais casos devemos estar vigilantes. Ou seja, devemos reconhecer que algumas das nossas crenças são particularmente propensas ao vício epistémico e, dessa forma, devemos tomar um cuidado e reflexão extra para se assegurar que estamos realmente a rastrear com precisão o estatuto epistémico das nossas crenças. Mas os problemas continuam: e se, depois de uma reflexão honesta e cuidadosa, os interlocutores do desacordo epistémico acham que, pelo seu melhor entendimento, estão a rastrear com precisão o estatuto epistémico positivo das suas respetivas crenças? O que dizer se a evidência que eles estão a considerar é equívoca ou ambígua? Para trazer luz a esta questão, Elgin (2010: 58) ilustra o seguinte caso de desacordo persistente e intratável:

David Lewis acreditava que existem infinitamente muitos mundos possíveis, cada um deles tão real quanto o mundo atual. Não há como negar que ele acreditou nisso. Além disso, não há como negar que ele foi incrivelmente inteligente, filosoficamente talentoso, e intelectualmente responsável. Ele examinou os argumentos a favor e contra a sua posição com enorme cuidado. Não é uma falsa modéstia dizer que Lewis era um filósofo muito melhor do que eu. (…) No entanto, acho que ele estava errado. Não posso refutar a sua posição; está admiravelmente bem defendida. Mas, apesar da inteligência e argumentos de Lewis, não acredito que existem mundos possíveis reais constituídos por objetos materiais e inacessíveis do mundo atual. Eu acredito que o único mundo é o mundo atual. Penso que a minha crença é razoável. Mas Lewis pensa de outra forma. Ele não era um meu par epistémico; ele foi meu superior epistémico. Assim, não deveria rever a minha crença para concordar com ele? (…) Em alguns casos, pelo menos, parece epistemicamente razoável submeter-me aos meus superiores epistémico. O meu desacordo com Lewis será diferente?

Como solução para este problema, Elgin (2010: 59-69) sustenta que:

Apesar da posição de Lewis ser brilhantemente contruída, admiravelmente defendida, e graciosamente argumentada, considero-a inacreditável. Simplesmente não posso ou consigo acreditar nisso. Uma vez que “dever” implicar “poder”, pelo facto de não poder ou conseguir acreditar nisso implica que não é o caso que eu devo acreditar nisso. E pelo facto de não poder acreditar que seja verdade, isso implica que não é o caso que eu deva suspender a crença ou diminuir o meu grau de crença de que o único mundo real é o mundo atual. É filosoficamente interessante, e talvez inquietante, que uma posição que achei absolutamente inacreditável admita uma defesa tão forte. Mas a minha crença não está em perigo.

Tradicionalmente, o dilema colocado pelo desacordo foi apresentado em termos do que devemos fazer à luz do desacordo entre pares. Ou seja, será que devemos rever ou, pelo contrário, manter firme a nossa crença? De acordo com Elgin (2010), este dilema está mal concebido. Isto porque a crença é sensível às evidências. Dado um corpo de evidência, não há escolha sobre o que acreditar. (Esta tese é conhecida como “não-voluntarismo doxástico” - para uma defesa desta posição veja a secção 3.5 da minha tese de doutoramento aqui). Diferentes agentes epistémicos podem avaliar a evidência de forma diferente e, portanto, chegam a diferentes crenças. Mas isso não é uma questão de escolha. Eles chegam a diferentes crenças porque a evidência os afeta de maneira diferente.

Ser sensível ou não, estar a reagir ou não a evidências, argumentos, ou pressão dos pares é algo que nos acontece. Ora, isto significa que não podemos seguir a recomendação tradicional de manter firme a nossa crença perante o desacordo entre pares ou a suspensão da crença. A forma como o desacordo entre pares afeta as nossas crenças não depende de nós. A nossa resposta não está sob o nosso controlo. Por isso, debates sobre se deveríamos suspender a crença perante o desacordo entre pares estão equivocados.

No entanto, será verdade que a crença é sempre involuntária? Como objeção pode-se defender que parece que, por vezes, as pessoas ignoram intencionalmente as evidências ou acreditam em coisas apesar de negligenciarem as evidências. Além disso, se a crença nunca for voluntária, não estaremos aberto a louvores ou culpas epistémicas. Por exemplo, supondo que a culpa requer controlo, não é fácil ver como alguém poderia culpavelmente falhar ao rastrear corretamente o estatuto epistémico das suas crenças. Assim, com a perspetiva de Elgin (2010) não é claro como é que alguém poderia ser intelectualmente vicioso.

Como resposta pode-se argumentar que é verdade que as pessoas podem por vezes ignorar a evidência ou acreditar com evidência insuficiente, o que seria em princípio um vício epistémico. Contudo, o que Elgin (2010) sublinha é que também pode suceder que por vezes as pessoas podem seguir a evidência e chegar a diferentes conclusões, e de tal forma que tais pessoas não podem deixar de acreditar no que acreditam (uma vez que podem achar a negação da sua crença completamente inacreditável). Ora, é apenas neste último caso que parece errado perguntar “o que devemos fazer perante um tal desacordo?” dado que não podemos fazer nada. Neste caso, parece que as nossas crenças estão fora do nosso controlo imediato. O máximo que podemos fazer nesses casos é influenciar indiretamente a nossa formação de crenças ao colocarmo-nos em certas posições (i.e. perante determinado conjunto de evidência, argumentos, etc) que maximizam as probabilidades de adquirir certo tipo de crenças.

Ainda assim há questões difíceis de responder. Por exemplo, como sabemos quais as posições que melhor nos permitem rastrear com precisão o estatuto epistémico das nossas crenças? Como nos podemos posicionar de forma a sermos recetivos à verdade? Para Elgin (2010) isso é uma questão de formação do caráter cognitivo. Assim, a questão é que tipo de caráter devemos formar. Ilustrando esta ideia, Elgin advoga que “é cognitivamente valioso ser capaz de apreciar como a evidência, o argumento, e a experiência suportam a razoabilidade de uma tese, mesmo quando não podemos acreditar na sua conclusão”.

Consequências do desacordo para a racionalidade do teísmo

Um dos maiores problemas que enfrenta o desacordo religioso é a preponderância de vício epistémico: especificamente arrogância intelectual. Muitas vezes os defensores mais sonoros de uma determinada perspetiva religiosa (ou anti-religiosa) são também os mais viciosamente dogmáticos, de mente fechada, e inflexíveis nos seus pontos de vista, atribuindo um estatuto epistémico positivo muito maior às suas crenças do que geralmente merecem. Tais vícios generalizados fazem, muito frequentemente, com que os desacordos religiosos sejam completamente intratáveis. Assim, surge um problema mais prático: quando há um desacordo religioso entre pares cada um dos interlocutores deve revê-las ou, pelo contrário, deve mantê-las? Será que os desacordos religiosos entre pares são semelhantes ao Caso do Restaurante ou, pelo contrário, ao Caso da Aritmética?

Por um lado, pode-se argumentar a favor da revisão, seguindo as teorias conciliatórias, partindo da seguinte questão: dada a tremenda diversidade religiosa no mundo (com uma abundância de pessoas igualmente informadas, inteligentes, e racionais que defendem quase todas as posições) como alguém poderia estar seguro de que as suas crenças religiosas (ou anti-religiosas) estão corretas quando muitas pessoas qualificadas discordam delas? Podemos pensar que as crenças religiosas são relevantemente como aquela razoável revisão no Caso do Restaurante. Assim, a coisa razoável a fazer quando estamos perante o desacordo religioso seria suspender a crença e, por consequente, podemos supor que a postura virtuosa quando se trata de religião seria o agnosticismo.

Mas, por outro lado, pode-se argumentar a favor da manutenção, segundo as teorias inflexíveis, sustentando-se que é possível que alguma crença religiosa (como a crença de que “Deus existe”) poderia ser mais parecida à crença de que \(2+2=4\) do que à crença sobre o que cada um deve numa dada conta de restaurante. Tal como as crenças aritméticas, os teístas podem afirmar acreditar que Deus existe porque eles simplesmente percebem que é verdade. (E, dada a existência de Deus, tal crença provavelmente terá um elevado estatuto epistémico positivo). Se isto é correto, então a crença religiosa de que Deus existe pode ser algo que um teísta poderá manter de forma razoável com um compromisso epistémico firme.

Esta argumentação a favor da manutenção depende do grau de estatuto epistémico positivo que as crenças religiosas (nomeadamente a crença de que Deus existe) efetivamente têm. Se o teísta estiver numa posição em que tal grau de estatuto epistémico positivo for realmente elevado, então pode ser razoável ter um compromisso epistémico firme com a sua crença (mesmo perante um desacordo religioso). Contudo, há um problema: como é que o próprio teísta sabe que está nessa posição favorável? É difícil determinar quem está de facto em tal posição. Além disso, pode-se apontar algumas diferenças significativas entre a crença aritmética que \(2+2=4\) e a crença teísta que Deus existe. Pode-se sublinhar que praticamente todas as pessoas racionais e suficientemente informadas acreditam que \(2+2=4\); pelo contrário há muito pouco acordo quando o assunto é religioso.

Como resposta pode-se argumentar que talvez existam casos em que um compromisso epistémico firme é permissível mesmo em face de um desacordo generalizado. Por exemplo, Considere-se o seguinte caso apresentado por Plantinga (2000: 450):

A polícia prendeu-me, acusando-me de um crime sério: roubei novamente a tua bandeira Frísia. Na esquadra da polícia soube que o Presidente da Câmara afirmou ter-me visto a esconder-me perto da tua porta traseira no momento em que crime ocorreu (ontem a meio da tarde); sou conhecido por ofender-te. Tinha meios, motivos, e oportunidades; além disso, houve outros episódios mesquinhos semelhantes no meu passado. Contudo, recordo-me muito claramente de passar toda a tarde de ontem numa solitária caminhada na montanha.

No caso apresentado por Plantinga, a crença do protagonista é tal que a maior parte ou praticamente todos discordam dele. Assim, a maioria das pessoas parece ter evidências substantivas e considera que aquele protagonista é um ladrão. Mas será irracional ou irrazoável se o protagonista, com base na sua memória fiável e clara, tiver um compromisso epistémico firme e inflexível com a crença de que não roubou a bandeira? Intuitivamente não será irracional ou irrazoável aquela atitude doxástica. (Dado que de facto ele não roubou a bandeira e sabe, com base na sua memória, que não a roubou). Não será possível que alguma crença religiosa seja semelhante a este último caso? Talvez isso seja possível. Mas há aqui um problema difícil: como podemos saber se alguém está numa tal situação?

Ainda assim, pode-se avançar com outros argumentos a favor da posição de compromisso epistémico firme com as crenças religiosas. Joshua Hook e Don Davis (2017) apresentam as seguintes razões:

  1. As crenças religiosas frequentemente são epistemicamente fundacionais (dado que abarcam grande parte das crenças das pessoas religiosas, sobre elas próprias e sobre o mundo que as rodeia).
  2. As crenças religiosas frequentemente servem como sinal de lealdade e de pertença a um grupo (sinais que regulam quem escutamos, confiamos, etc).
  3. As crenças religiosas frequentemente são consideradas como mais valiosa quando sustentadas com certeza.

Seguindo a epistemologia do desacordo de Elgin (defendida na secção anterior), podemos dizer que por vezes não podemos simplesmente alterar as nossas crenças de forma direta, sendo razoável continuar com elas. Mas serão estas razões plausíveis a favor de um compromisso epistémico firme e inflexível com a crença em Deus?!  


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