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Teorias do Conhecimento depois de Gettier

De acordo com a definição tradicional de conhecimento, também conhecida como definição tripartida do conhecimento (CVJ), em que se visa estabelecer condições necessárias e conjuntamente suficientes para que um sujeito S conheça uma dada proposição p, defende-se a seguinte teoria do conhecimento:

(CVJ) S sabe que p sse:

(i) S acredita que p,

(ii) p é verdadeira,

(iii) S está justificado a acreditar que p.

Esta teoria foi proposta por Platão no Teeteto (§291) e no Ménon (§98), e foi considerada uma definição plausível de conhecimento ao longo da história, sendo mais contemporaneamente defendida por Roderick Chisholm e Alfred Ayer. Contudo, Edmund Gettier no influente artigo “Is Justified True Belief Knowledge?”, publicado na revista Analysis (v.23, pp.121-3) em 1963, apresenta dois contraexemplos à teoria CVJ, criticando a suficiência da CVJ para haver conhecimento.

O problema Gettier

O Caso 1, o qual pode ser nomeado como “Moedas”, é apresentado por Gettier desta forma: enquanto aguardava por uma entrevista de emprego, a Maria viu o José a contar quantas moedas tinha no bolso: 10 moedas. Ela também ouviu o patrão ao telefone a dizer a alguém que o José é a pessoa que vai ter o emprego. Com base dessa evidência, a Maria acredita justificadamente na seguinte conjunção:

(1) O José vai conseguir o emprego, e o José tem 10 moedas no seu bolso.

Com base na sua crença justificada (1), a Maria deduz e passa a acreditar justificadamente que:

(2) A pessoa que vai conseguir o emprego tem 10 moedas no seu bolso.

Contudo, apesar da evidência da Maria, (1) é falsa; o patrão enganou-se ao telefone. Além disso, é a Maria, não o José, quem vai conseguir o emprego; e por puro acaso, a Maria tem exatamente 10 moedas no seu bolso. Ora, a Maria tem uma CVJ em (2), mas não tem conhecimento (pois essa crença é afinal verdadeira por mero acaso).

Quando ao Caso 2, que podemos designar como “Ford”, Gettier parte da suposição de que a Maria tem a seguinte evidência: o José guarda uma Ford na sua garagem; o José foi visto a conduzir um Ford; o José disse que tem um Ford e tem sido honesto e fiável no passado, etc. Ora, a partir dessa evidência a Maria forma a crença de que:

(3) O José tem um Ford.

Com base nessa crença justificada, a Maria deduz justificadamente e passa acreditar na seguinte disjunção:

(4) O José tem um Ford ou o seu amigo Sousa está em Barcelona.

Apesar de ignorar por completo o paradeiro do Sousa, por pura coincidência o Sousa está em Barcelona. Além disso, por acaso o José já não tem um Ford (recentemente vendeu-o). Ora, a crença da Maria em (4) é uma CVJ. Todavia, intuitivamente a crença da Maria não pode ser conhecimento; é por mera sorte que a sua crença é verdadeira.

Com base nestes dois exemplos consegue-se mostrar que podemos ter uma crença verdadeira justificada (CVJ) mas não ter conhecimento; ou seja, não é suficiente ter uma CVJ para se ter conhecimento. Por isso, a definição tradicional de conhecimento não está em ordem. Como resolver, então, o problema da definição do conhecimento? Este problema é conhecido como “problema Gettier”.

Como formular uma teoria do conhecimento que responda plausivelmente ao problema Gettier? Ou seja, precisamos de uma teoria do conhecimento que ultrapasse de alguma forma os contraexemplos apresentados por Gettier. Como reação a esse problema surgiram dois tipos de resposta bastante diferentes.

Por um lado, temos as respostas não-reducionistas que visam defender que o conhecimento não é suscetível de análise em termos de condições necessárias e suficientes. Por exemplo, Wittgenstein (1957) defende a tese de que não há sequer um conceito unificado de conhecimento que seja suscetível de análise: há apenas uma série de conceitos diferentes mas semelhantes uns aos outros. Numa linha de raciocínio semelhante Linda Zagzebski (1994) defende que o problema Gettier é insolúvel. E, mais recentemente e de forma influente, Timothy Williamson (2000) defende que o conceito de conhecimento é primitivo e, por isso, não pode ser reduzido a conceitos mais básicos como o de “crença”, “verdade”, e “justificação”.

Por outro lado, as respostas reducionistas, as quais se apresentam como mais optimistas para oferecer uma solução ao problema Gettier, têm como objetivo fortalecer a condição (iii) ou adicionar uma nova condição (iv) à definição tradicional de conhecimento. Neste tipo de resposta são oferecidas várias possíveis condições, tal como alguma das seguintes: infalibilidade, sem fundamentos falsos, causa apropriada, fiabilismo, sensibilidade, ou segurança. Vale a pena considerar com pormenor cada uma destas respostas e avaliar qual é a mais plausível.

Respostas não-reducionistas

As respostas não-reducionistas são aquele tipo de solução ao problema Gettier que abandona o projeto de uma análise filosófica da noção de conhecimento. Ou seja, abandona o projeto de decompor o conceito de conhecimento noutros conceitos mais simples, primitivos, ou mais básicos do que ele.

Timothy Williamson (2000) é provavelmente o filósofo mais influente a defender este tipo de resposta não-reducionista. Williamson defende a tese de que o conceito de conhecimento é ele próprio um conceito primitivo, não explicável em termos de outros conceitos. Para defender essa tese, Williamson começa por criticar os pressupostos essenciais da análise tradicional do conhecimento. De acordo com William, são dois os pressupostos da teoria CVJ:

A suposição (S1) relaciona-se com a (S2) na medida em que uma análise pretende elucidar que tipo de componentes mentais são necessários para além do componente não-mental da verdade. Ora, Williamson procura argumentor contra os pressupostos (S1) e (S2). Contra tais pressupostos Williamson defende uma epistemologia do conhecimento primeiro. Ou seja, propõe-se uma inversão da direção da explicação. É o conceito de conhecimento que pode ser usado para explicar outros conceitos epistémicos (como crença, justificação, evidência, etc) e não o inverso.

Williamson apresenta vários argumentos contra os pressupostos (S1) e (S2). Contra (S1) estabelece uma analogia com outros conceitos. Podemos notar que a grande maioria dos nossos conceitos são conceitos não analisáveis, indefiníveis, no sentido de ser possível associar-lhes condições necessárias e suficientes (não triviais e não circulares) para a sua aplicação correta. Conceitos quotidianos como “vermelho”, “beleza”, “inteligência”, “pessoa”, “adolescente”, etc, parecem não ser analisáveis ou definíveis neste sentido estrito. Uma das razões para isso é que tais conceitos são vagos, admitem casos de fronteira. Todavia, daí não se segue que esses conceitos não estejam em ordem ou que sejam ininteligíveis. Além disso, são poucos os conceitos que admitem definições ou análises neste sentido estrito, como o seguinte: S é solteiro sse S é uma pessoa do sexo masculino que não é casada. Ora, Williamson alega que o conceito de conhecimento é como a maioria dos nossos conceitos; i.e., um conceito não analisável ou indefinível.

Um outro argumento contra (S1) tem um caráter indutivo. Se repararmos bem na história da epistemologia recente, desde a publicação do artigo de Gettier em 1963, é a história de sucessivos insucessos de inúmeras tentativas de analisar a noção de conhecimento. Cada proposta para remendar a CVJ ou para adicionar uma nova quarta condição CVJ+X tem dado invariavelmente origem a novos casos de tipo Gettier contra a suficiência das condições. Ora, Williamson toma esses insucessos como evidência indutiva forte de que a suposição (S1) é falsa.

Contra (S2) Williamson advoga que o conhecimento não consiste na posse de um estado híbrido (mental e não-mental); assim, a motivação para uma análise também se perde. Pelo contrário, o conhecimento é um estado inteiramente mental. Mas, assim, como lidar com a factividade do conhecimento? A ideia é que a natureza de certos estados mentais não é inteiramente determinada pelo que está dentro da cabeça do sujeito, mas é também determinado pelo que está no mundo exterior. Com isto adota-se um externismo cognitivo.

Mas, pelo factos dos pressupostos (S1) e (S2) serem falsos, daí não se segue que nada de informativo possa ser dito acerca do conceito de conhecimento (pois, em geral, os conceitos primitivos, sem análises, podem bem ser positivamente caraterizados). Williamson pensa que o conhecimento entre os estados psicológicos e epistemológicos mais fundamentais que existem. Ou seja, “primeiro o conhecimento”: o conhecimento não é constituído por componentes epistemicamente mais básicas como a crença e a justificação; pelo contrário, o conhecimento é o estado epistémico mais básico que permite elucidar as noções de crença e justificação. Mais especificamente, Williamson propõe a seguinte caraterização positiva do conceito de conhecimento:

(K) Conhecimento proposicional = o mais geral (ou mais inclusivo) estado mental intencional factivo.

Será esta abordagem não-reducionista uma boa resposta para o problema Gettier? Podem-se apresentar algumas objeções aos argumentos de Williamson. O argumento contra (S1) parece apresentar fragilidades; pois, pelo facto de até agora não se conseguir chegar a um consenso sobre uma análise plausível de conhecimento, daí não se segue que não haja ou que não possa existir no futuro tal análise. O argumento contra (S2) também pode ser criticado. Por exemplo, Sosa (2009) critica a tese de que o conhecimento é um estado puramente mental. Ora, um estado é puramente mental quando é mental mas a caraterística que ele tem de ser mental é uma caraterística intrínseca, não derivada, do estado em questão. Todavia, o conhecimento é mental apenas em virtude de um estado distinto, a crença, ser mental. Por sua vez, Lycan (2006) argumenta que a solução proposta por Williamson não explica, p.e., por que razão se aceita que muitas instâncias da CVJ são conhecimento enquanto outras não. Ou seja, há a questão de saber o que distingue o sujeito que conhece daquele que é vítima de um caso Gettier. Cassam (2009) e Goldman (2009) argumentam que a explicação positiva do conhecimento proposta por Williamson acaba por ser um tipo de análise, constituindo um tipo de resposta reducionista.

Respostas reducionistas

As respostas reducionistas consideram que o conhecimento pode ser analisável noutros conceitos mais simples, primitivos, ou mais básicos do que ele, sendo possível apresentar condições necessárias e conjuntamente suficientes para se definir de forma informativa e não circular o que é o conhecimento. Então, como resolver o problema Gettier?

Uma das primeiras soluções reducionistas é conhecida como “infalibilismo”. A ideia é fortalecer a condição (iii) da CVJ. Isto porque a justificação apresentada nos casos Gettier é falível. Ou seja, embora forneça bom suporte para a verdade da crença em questão, esse suporte não é perfeito. Deste modo, a justificação deixa em aberto a possibilidade de crenças falsas. Keith Lehrer (1971) e Peter Unger (1971) sugeriram que podemos eliminar os casos Gettier se impedirmos que S tenha uma justificação falível. Assim, propõem-se que é necessária uma justificação infalibilista. Contudo, esta proposta apresenta vários problemas. Em primeiro lugar, a proposta é contraintuitiva, dado que na nossa vida diária conhecemos muitas coisas e raramente possuímos justificação infalível para as nossas crenças. Em segundo lugar, é uma proposta de solução que conduz ao ceticismo. Pois, de acordo com esta proposta, há conhecimento só se há justificação infalível; mas não temos justificação infalível (pelo menos a maior parte das vezes); logo, não temos conhecimento.

Uma outra solução reducionista que surgiu imediatamente a seguir à apresentação do problema de Gettier é conhecida como “condição sem fundamentos falsos”. Observou-se que nos casos originais de Gettier, a Maria infere justificadamente uma crença verdadeira a partir de uma crença falsa mas justificada. Para se bloquear isso pode-se adicionar, como propôs Clark (1963), um nova condição à CVJ:

(iv) A crença de S que p não é inferida a partir de qualquer falsidade.

À primeira vista isto parece constituir uma solução engenhosa e elegante para responder ao problema Gettier. No entanto, há boas objeções contra a condição (iv). Pode-se questionar: será que não pode haver conhecimento a partir de crenças falsas? Alguns filósofos, como Warfield (2005), Fitelson (2010), Luzzi (2014) argumentam que é possível haver conhecimento de uma conclusão q a partir de uma premissa falsa p que implique q. Considere-se o seguinte exemplo apresentado por Warfield (2005: 408): “Com base na leitura das horas do meu relógio especial, passo a acreditar que são 14h58. Dedutivamente infiro que não estou atrasado para o meu encontro às 19 horas. Intuitivamente, conheço a minha conclusão mesmo se de facto são 14h56”. A intuição central é que o conhecimento pode tolerar algum erro ou falsidade na premissa (na medida em que esse erro não é relevante para ameaçar a verdade da conclusão). Mas se isto é correto, então a solução de adicionar a condição “sem fundamentos falsos” não funciona.

Além disso, contra a condição (iv) proposta podem-se apresentar novos casos de tipo Gettier não-inferenciais. Alvin Plantinga (1993) apresentou um desses casos, que designaremos como Caso 3 e o nomeamos como “Guarda-Florestal”. O caso é o seguinte: Um guarda-florestal idoso vive numa pequena casa nas montanhas. Do lado de fora da janela da sua cozinha há um conjunto de sinos de vento pendurados num ramo de uma árvore. E quando esses sinos de vento emitem som, o guarda-florestal forma a crença de que o vento está a soprar. Mas como ele é idoso, a sua audição deteriorou-se (sem que ele o soubesse) e, assim, ele não é mais capaz ouvir os sinos. Além disso, ele é por vezes sujeito a pequenas alucinações auditivas de sinos de vento; e ocasionalmente essas alucinações ocorrem quando o vento está a soprar. Neste caso o guarda tem uma CVJ não inferencial de que o vento está a soprar; mas a sua crença é verdadeira por acaso. Assim não tem conhecimento.

Um outro caso de tipo Gettier não-inferencial bastante conhecido foi concebido por Chisholm (1989: 93). Chamemos a esse Caso 4 de “Ovelha”: A Maria, enquanto observa do caminho um pasto, vê em boas condições visibilidade o que parece ser à distância um ovelha e passa a acreditar que há uma ovelha no campo. Assim, a Maria forma a crença de que há uma ovelha no campo. Contudo, suponha-se que a Maria não está de facto a olhar para uma ovelha, mas sim para um cão vestido para parecer com uma ovelha (um cão habilmente disfarçado). Ainda assim, por acaso, há uma ovelha no campo: está imediatamente atrás do cão, escondida do campo visual da Maria. Neste caso temos uma CVJ não inferencial de que há uma ovelha no campo, mas não é um caso de conhecimento. Ora, a condição (iv) proposta, ainda que consiga lidar com os casos originais de Gettier, não consegue resolver os novos casos de tipo Gettier não-inferenciais.

Como uma solução reducionista mais madura surgiu a teoria da “causa apropriada”. Nos casos Gettier pode-se dizer que não há conhecimento porque a crença verdadeira justificada é causada (gerada) de forma anómala ou inadequada. Por exemplo, no Caso 1, o que torna a crença (2) “A pessoa que vai conseguir o emprego tem 10 moedas no seu bolso” verdadeira é o número de moedas no bolso da Maria, mas não é isso que causa a existência da crença da Maria. O que causa a crença da Maria é o facto do José ter 10 moedas no bolso, e esse facto não é o que torna (2) verdadeira. No caso 2, o que torna a crença (4) “O José tem um Ford ou o seu amigo Sousa está em Barcelona” verdadeira é o facto do Sousa estar em Barcelona, mas não é isso que causa a existência da crença da Maria. Algo semelhante sucede com os outros casos tipo Gettier. Ou seja, nesses casos não há uma conexão causal entre a crença gettierizada e o facto que a torna verdadeira. É a ausência de tal conexão que permite a possibilidade da crença ser verdadeira meramente por acaso. Por exemplo, no Caso 4, o caso “Ovelha”, só posso saber que está no campo uma ovelha se for uma ovelha a causar a minha crença. Todavia, no caso em questão, a crença da Maria é causada por um cão (ainda) que disfarçado. Ora, os factos que levam a Maria a adquirir a crença sobre a ovelha são distintos dos factos que tornam a sua crença verdadeira. Assim, a Maria não sabe que está no campo um ovelha. Para lidar com este problema, Goldman (1967) propôs, para ser acrescentado à CVJ, uma condição externista:

(v) A crença de S que p é causada pelo facto que p.

Apesar de (v) apresentar uma condição para uma teoria do conhecimento mais plausível do que as versões anteriores, essa condição tem vários problemas. Por exemplo, pode-se alegar que se a aceitarmos a condição (v), então não pode haver conhecimento do futuro. Isto porque é plausível dizer que S sabe hoje que amanhã é terça-feira, ou que sabe que amanhã é 17 de Julho, ou que sabe hoje que no fim de semana o Moreirense vai jogar com o Boavista. Porém, com a condição causal essas crenças não poderiam constituir conhecimento, pois factos futuros (factos que ainda não se verificaram) não podem ser causas de crenças formadas no presente. Teria de se admitir cadeias causais retrospetivas (do futuro para o passado). Além disso, com (v) não pode haver conhecimento de crenças matemáticas. Por exemplo, S sabe que 2+2=4 ou que 97 é um número primo; assim, S sabe uma verdade acerca dos números. Mas eles têm efeitos causais? Ora, a menos que sejamos realistas radicais acerca da matemática e postulemos um domínio de factos matemáticos, tal crença não é causada por qualquer facto. Isso parece suceder com outras crenças a priori e até com crenças morais. Assim, a condição (v) não parece plausível.

Para ultrapassar esses problemas, Goldman formulou uma outra teoria que é descendente da teoria da causalidade e que se chama fiabilismo. De acordo com Goldman (1979: 10), “o estatuto justificatório de uma crença é uma função da fiabilidade do processo ou dos processos que a causam, onde (numa primeira aproximação) a fiabilidade consiste na tendência de um processo para produzir crenças que são verdadeiras em vez de falsas”. Assim, propõe-se a seguinte condição, para ser acrescentada à CVJ, de forma a haver conhecimento:

(vi) A crença de S que p é produzida por um processo cognitivo fiável.

O problema é ter uma CVJ juntamente com (vi) não é suficiente para haver conhecimento. Isto porque há novos contraexemplos do tipo Gettier que escapam tanto à condição causal como à condição fiabilista. Considere-se o Caso 5, conhecido na literatura como caso do “Celeiro”, desenvolvido pelo filósofo Carl Ginet: A Maria está a conduzir numa zona rural e, num dado momento, olha a paisagem pela janela do seu carro. Ela vê o que parece ser um celeiro no meio de uma planície e forma uma crença percetiva que há um celeiro na planície. Contudo, a Maria não está ciente que está a olhar para um dos poucos celeiros reais numa área repleta com meras fachadas de celeiros (i.e estruturas que, vistas da estrada, são indiscerníveis de celeiros reais, mas são falsos celeiros). Neste caso a Maria tem uma crença verdadeira justificada. Além disso é apropriadamente causada e resulta de um processo fiável. Todavia, não é um caso de conhecimento, pois foi uma questão de pura sorte ela estar a olhar para um celeiro real.

Um outro caso parecido e bastante conhecido é o Caso “Relógio”, de Bertrand Russell. Esse Caso 6, que escapa à condição (vi), pode ser apresentado desta forma: Suponha-se que a Maria desce as escadas de manhã para tomar o pequeno almoço e vê que de acordo com o seu relógio, normalmente fiável, que está na cozinha são 8h20. Além disso, suponha-se que essa crença é verdadeira e que de facto são 8h20. Aqui temos um caso em que a Maria forma uma crença verdadeira justificada, bem como parece ser o resultado de um processo fiável. Contudo, o relógio está de facto parado há 24 horas e, assim, foi apenas por uma questão de sorte que a Maria olhou para o relógio no exato momento do dia em que ele está a registar a hora correta. Ora, uma vez que intuitivamente não se pode obter conhecimento das horas ao olhar para um relógio parado, segue-se que a Maria não sabe que horas são, apesar de ter uma crença verdadeira justificada e fiável.

Um outro candidato forte para ser a quarta condição do conhecimento é a condição modal da sensibilidade. Essa condição foi formulada por Robert Nozick (1981) e pode ser formulada do seguinte modo:

(CS) Uma crença p de S é sensível sse: se p fosse falsa, S não acreditaria que p.

Ora, (CS) é equivalente a dizer que nos mundos possíveis próximos em que não-p, S não acredita que p. Uma motivação para se incluir a condição da sensibilidade numa análise do conhecimento é que parece haver um sentido em que o conhecimento requer não apenas que se esteja correto, mas que se rastreie a verdade noutras circunstâncias possíveis. Assim, acrescenta-se a seguinte condição à CVJ:

(vii) A crença de S que p é sensível.

Essa condição permite lidar com os casos Gettier. Por exemplo, no Caso 5, caso fosse falso que o objeto que a Maria está a olhar é um celeiro real (ou seja, se fosse um falso celeiro), a Maria continuaria a acreditar nessa proposição (visto que a base para essa crença não seria alterada). Assim, a crença da Maria seria insensível, violando-se a condição (vii) e, por isso, não pode constituir um caso de conhecimento. Uma estratégia similar pode ser apresentada com sucesso para todos os outros casos de tipo Gettier.

Mas será essa uma boa teoria do conhecimento? É bastante controverso, pois se aceitarmos (vii), então teremos de rejeitar um princípio da epistemologia bastante aceite: o princípio do fecho. Ou seja, a sensibilidade implica que o princípio do fecho, que é bastante intuitivo, é falso. Mas o que se afirma no princípio do fecho? Este princípio advoga o seguinte:

(PF) Para todo S, \(\phi\), \(\psi\), se S sabe que \(\phi\), e S sabe que \(\phi\) implica \(\psi\), então S sabe que \(\psi\).

Por exemplo, aplicando (PF), se sei que tenho duas mãos, e se sei que ter duas mãos implica que não sou um cérebro numa cuba, então sei que não sou um cérebro numa cuba. O problema é que a crença que tenho duas mãos satisfaz a condição da sensibilidade (CS), pois suponha-se que agora acreditamos que temos duas mãos; parece intuitivo que se fosse falso que temos duas mãos (p.e. suponha-se que ocorreu um acidente), mas tudo o resto fosse igual, então não acreditaríamos mais que temos mãos; aliás, veríamos que não as tínhamos. Todavia, a crença que não sou um cérebro numa cuba não satisfaz (CS), pois agora acreditamos que não somos um cérebro numa cuba; mas se fossemos um cérebro numa cuba, continuaríamos ainda assim acreditar que não somos um cérebro numa cuba. Assim, de acordo com (CS) e a condição (vii), sabemos que temos duas mãos, mas não sabemos que não somos um cérebro sem mãos numa cuba. Mas parece absurdo que possamos simultaneamente saber que temos duas mãos e não saber que não somos um cérebro sem mãos numa cuba; ou seja, tal conjunção, como defende DeRose (1995: 27-29), parece “abominável”.

Com a mesma linha de raciocínio, Saul Kripke (2011: 186) apresenta outro exemplo sobre as implicações negativas de (CS): Suponha-se que uma zona rural está repleta de fachadas de celeiros falsos, mas agora tais fachadas estão pintadas de azul; por sua vez, os raros celeiros verdadeiros estão pintados a vermelho. Ora, a Maria olha para um celeiro que está pintado de vermelho. Com base na sua experiência perceptiva, a Maria acredita corretamente que:

(5) Há um celeiro vermelho no campo.

Propensa a ser um pouco meticulosa, ela também nota que:

(6) Se há um celeiro vermelho no campo, então há um celeiro no campo.

Daí ela deduz competentemente que:

(7) Há um celeiro no campo.

Ora, a crença (5) satisfaz (CS), pois se o celeiro não fosse vermelho, não parceria como tal (i.e. seria azul). Mas, a crença (7) não satisfaz (CS), pois se não fosse um celeiro, poderia ainda assim ser uma fachada e parecer como um celeiro. Assim, o princípio (PF) falha; mas é muito estranho e contraintuitivo afirmar que posso saber que é um celeiro vermelho, mas não saber que é um celeiro.

Ainda contra a condição (vii), Ernest Sosa (1999: 145) defende que essa não é uma condição necessária para o conhecimento. Para defender isso, Sosa apresentou o seguinte Caso 7, a que designamos como “Saco do Lixo”: Imagine-se que a Maria deposita um saco de lixo por um canal de lixo do seu apartamento num arranha-céus que vai dar a um reservatório na cave. Será que ela sabe, instantes depois, que o seu lixo está no reservatório da cave? De acordo com a condição de sensibilidade a resposta é “não”, pois a sua crença a este respeito não é sensível. Ou seja, se aquele saco ficasse de alguma forma preso a meio do caminho para o reservatório, de modo a que a sua crença seria falsa, ela ainda assim continuaria a acreditar (utilizando o mesmo método que usou no mundo atual) que o saco do lixo está agora no reservatório da cave. O problema é que este é uma instância paradigmática de conhecimento quotidiano, e se a teoria da sensibilidade não consegue dar conta desses casos, então é uma teoria com sérios problemas.

Haverá uma melhor teoria do conhecimento? Uma solução que parece bastante prometedora e que não é suscetível aos problemas anteriores, sugerida por Sosa (1999), passa por adicionar uma condição modal de segurança à análise de conhecimento:

(CS*) Se S sabe que p, então a crença verdadeira de S que p não poderia ter sido facilmente falsa.

Por outras palavras, a condição de segurança advoga que a crença verdadeira de S que p é tal que, em mundos possíveis próximos (em circunstâncias similares), se S continua a formar p com a mesma base que no mundo atual, então a crença p de S continua a ser verdadeira. A condição (CS*) permite lidar com os casos Gettier, uma vez que em todos esses casos o sujeito forma uma crença verdadeira de tal forma que ela poderia ter sido muito facilmente falsa. Por exemplo, no Caso 6, o caso do Relógio, embora a crença assim formada (de que são 8h20) seja verdadeira no mundo atual, há um mundo possível próximo em que a Maria forma essa mesma crença com a mesma base (i.e. ao olhar para o relógio da sua cozinha) e em que forma uma crença falsa (i.e. num mundo possível próximo em que o relógio continua parado, mas em que ela chega à cozinha minutos antes ou minutos depois das 8h20). Ou seja, os casos de tipo Gettier são casos em que o sujeito forma, nos mundos possíveis próximos, uma crença falsa na proposição em questão (apesar de se utilizar a mesma base que no mundo atual).

Será que se adicionarmos à CVJ a condição (CS*) teremos uma boa teoria do conhecimento? É possível argumentar que ter uma CVJ+(CS*) não é suficiente para haver conhecimento. Para mostrar isso pode-se apresentar o Caso 6, designado como “Termómetro Avariado”, adaptado a partir de Pritchard (2012): A Maria forma uma crença sobre a temperatura da sala ao consultar um termómetro que está avariado (sem que ela esteja ciente disso). Apesar disso, há alguém na sala (escondido da vista) que assegura que sempre que a Maria consulta o termómetro, o termómetro corresponde à atual temperatura da sala. Ora, a crença da Maria sobre a temperatura correta da sala parece ser segura. Ou seja, por causa da interferência da pessoa escondida, é sempre garantido que sempre que a Maria consulta o termómetro este mostra a temperatura correta na sala. Assim, nos mundos possíveis próximos em que a Maria forma a sua crença sobre a temperatura da sala, a sua crença será verdadeira. Mas apesar de ser uma crença segura, a sua crença não parece contar como conhecimento.

O problema neste caso 8, é que o sucesso cognitivo da Maria (i.e. acreditar verdadeiramente na temperatura) não é de forma alguma um produto das suas faculdades ou processos cognitivos, mas em vez disso deve-se a fatores completamente independentes das suas faculdades ou processos (i.e., deve-se apenas à pessoa escondida na sala). Além disso também se pode sustentar que consultar um termómetro avariado não é tipicamente um método fiável de formação de crenças verdadeiras acerca da temperatura de uma sala. Deste modo, a condição (CS*) não é suficiente para o conhecimento, sendo necessário acrescentar outras condições ou reformular melhor a condição (CS*). Uma proposta de reformulação de (CS*), sugerida por Pritchard (2015), para lidar com esses problemas é acrescentar à CVJ a seguinte condição:

(viii) a crença p de S é segura, sendo que o sucesso cognitivo de S é atribuível, parcialmente ou num grau significativo, às suas faculdades ou processos cognitivos.

Com esta reformulação, temos uma teoria do conhecimento que, para além de lidar com os casos tipo Gettier, consegue acomodar sem problemas o caso 8. Além disso, com (viii) não há consequências negativas para o princípio do fecho. Apesar destas vantagens, é possível criticar a necessidade da condição (viii) para haver conhecimento. Por exemplo, Christoph Kelp (2016), inspirando-se nos famosos casos de Frankfurt (1969) a favor da compatibilidade entre determinismo e livre-arbítrio, apresenta o seguinte Caso 9, que designamos como “Relógio de Frankfurt”, contra a necessidade da condição (viii): O maior inimigo da Maria, um demónio poderoso, tem interesse que a Maria forme uma crença que são 8h20 ao olhar o relógio da sua cozinha quando desde as escadas. De forma a alcançar esse objetivo, o maior inimigo da Maria está preparado para ajustar o relógio para as 8h20 quando a Maria descer as escadas. Contudo, o maior inimigo da Maria é também preguiçoso. Ele agirá só se a Maria não descer as escadas, por sua livre vontade, às 8h20. Suponha-se que a Maria desce as escadas às 8h20. O maior inimigo da Maria permanece inativo. A Maria forma uma crença de que são 8h20. E são de facto 8h20, bem como o relógio da sua cozinha está a funcionar fiavelmente.

Intuitivamente Kelp (2016) alega que a Maria sabe que são 8h20. Afinal podemos supor que a sua leitura das horas foi o resultado de faculdades cognitivas que funcionam apropriadamente, que respondem adequadamente à evidência, e são fiáveis. Além disso, o relógio está a funcionar adequadamente e o registo das horas foi preciso. Todavia, a crença da Maria não satisfaz a condição da segurança (viii). Isto porque entre os mundos possíveis próximos estão aqueles mundos em que Maria desce as escadas alguns minutos mais cedo ou mais tarde. Ora, nesses mundos o demónio intervém e, dessa forma, a Maria forma uma crença falsa de que são 8h20. Assim, a sua crença não é segura.

Como lidar com este Caso 9? Pode-se começar por questionar: Será que, no Caso 9, a Maria tem de facto conhecimento que são 8h20? Aqui não partilho a intuição de que a Maria tem conhecimento naquele caso. Pois, afinal, dado como a Maria formou a sua crença foi um puro acaso que ela formou uma crença verdadeira. Se ela tivesse descido as escadas um minuto antes ou um minuto depois formaria uma crença falsa. Assim, foi meramente por sorte que teve uma crença verdadeira. Mas será que posso ter conhecimento por sorte? Intuitivamente não. No fundo, a Maria está a descobrir que horas são ao olhar para algo que é similar a um relógio parado, uma vez que qualquer que seja a hora que ela desça as escadas o relógio marcará sempre “8h20”. Porém, não se pode ter conhecimento das horas ao consultar algo similar a um relógio parado, mesmo que por acaso se forme uma crença verdadeira. Portanto, a condição (viii) continua a ser necessária para o conhecimento. Se esse raciocínio for procedente, ficamos com a seguinte teoria do conhecimento que parece muito plausível:

(CVJS) S sabe que p sse:

(i) S acredita que p,

(ii) p é verdadeira,

(iii) S está justificado a acreditar que p.

(viii) a crença p de S é segura, sendo que o sucesso cognitivo de S é atribuível, parcialmente ou num grau significativo, às suas faculdades ou processos cognitivos.

E o leitor: concorda ou não com esta teoria do conhecimento?  


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